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Política, Bíblia e Igreja – II

O cristão pode ser político? A igreja deve falar de política? Como tratar os membros que exercem cargos públicos?

Estas são mais três perguntas sobre política que alguns jovens de uma igreja me fizeram. Apresento aqui um resumo adaptado do que discutimos naquela ocasião, à luz da Bíblia e da experiência pastoral.

1. O cristão pode ser político?

Sim, desde que tenha vocação e capacitação para isso. Não basta ser cristão para exercer bem uma função política.

O político deve ser íntegro, coerente com a fé e os valores cristãos, e honesto, sincero, e transparente em suas atitudes. 

Além disso, precisa ser dedicado ao trabalho, atento aos problemas e às necessidades da população que governa e representa.

E mais: não deve desperdiçar tempo e energia com partidarismo exacerbado, provocações e ataques aos demais políticos, frequentemente tratados como inimigos

É lamentável que algumas pessoas ingressem na política motivadas principalmente pelo dinheiro, pelo prestígio e pelo poder, em vez de pelo desejo de servir à população. 

Poder, dinheiro e prestígio podem corromper!

Além dos salários altos, determinados cargos oferecem benefícios como auxílio-moradia, transporte, assistência à saúde, verba para viagens e contratação de assessores, entre outros. Esses recursos devem ser utilizados de acordo com a lei, com transparência e responsabilidade.

Infelizmente, há quem veja na política apenas uma oportunidade de enriquecimento pessoal.  

O apóstolo Paulo adverte:

“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”  (I Tm 6.10).

Sal da terra e luz do mundo

Jesus disse aos seus seguidores: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5.13-16). Se isso se espera de todos os cristãos, quanto mais daqueles que, eleitos pelo povo, têm a responsabilidade de liderar e governar! 

Entretanto, nem sempre o testemunho dos políticos que se declaram cristãos,  inclusive evangélicos, corresponde aos valores que professam. Há excessões, certamente. 

Exemplos de bons governantes na Bíblia

A história bíblica apresenta exemplos notáveis de governantes e administradores, embora nenhum deles fosse perfeito.

José, bisneto de Abraão, destacou-se como Governador do Egito. Quando o Faraó precisou de alguém capacitado para enfrentar a crise que se aproximava, reconheceu em José qualidades extraordinárias: 

“Acharemos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus” (Gn 41.38). 

Ah, se pudéssemos votar em um candidato com a certeza de que ele busca a direção do  Espírito de Deus e tem senso de responsabilidade e justiça!

Durante o exílio dos judeus na Babilónia e, posteriormente na Pérsia, Daniel, Neemias, Ester e outros foram instrumentos de Deus nas cortes estrangeiras. 

Como o cristão deve escolher seus candidatos? 

Entretanto, o cristão não deve votar em um candidato somente porque ele se declara cristão ou evangélico. Precisa conhecer seu histórico, seu caráter, suas qualificações, suas propostas e sua atuação política. 

A identidade religiosa, por si só, não garante competência, nem mesmo honestidade e compromisso com o bem comum. Se, além de preparado e íntegro, o candidato for um cristão autêntico, tanto melhor. 

Independentemente de nossas preferências políticas, porém, devemos orar pelas autoridades. O apóstolo Paulo recomendou que fossem feitas “orações, intercessões e ações de graças por todos os que e se acham investidos de autoridade” (I Tm 2.1). 

2. Deve-se falar de política na igreja?

Certamente! A política influencia a vida das pessoas e da sociedade.

A Bíblia ensina que a autoridade civil tem responsabilidades diante de Deus. Paulo afirma que a “a autoridade é ministro de Deus para o teu bem“ (Rm 13.4). Como destacamos na mensagem anterior, cremos na soberania de Deus e em sua atuação ao longo da história, inclusive nas circunstâncias políticas e por meio dos governantes.

Por que, então, não orientar os membros da igreja sobre política, à luz da Bíblia,  da histórica e dos princípios cristãos, com sabedoria, equilíbrio e prudência?

A igreja não deve ignorar a política, mas precisa abordá-la com responsabilidade.

Entretanto, a igreja não deve assumir oficialmente a defesa de um partido ou candidato, nem induzir os membros a votar numa ou noutra pessoa.

Esse cuidado é especialmente importante em tempos de polarização política, como temos vivido no Brasil.

Nesse presente contexto, qualquer referência a um determinado candidato ou uma opinião sobre a direita ou a esquerda pode provocar discussões, alimentar ressentimentos e comprometer a comunhão entre os irmãos. 

A igreja precisa ensinar a verdade sem transformar divergências políticas em motivo de hostilidade. A unidade cristã não exige que todos tenham as mesmas opiniões.

Há ainda outro cuidado fundamental: os pastores e líderes da igreja não devem permitir que o púlpito seja utilizado como palanque eleitoral.

O púlpito deve permanecer comprometido com a proclamação da Palavra de Deus, a edificação dos cristãos e o cumprimento da missão da igreja.

3. Como agir quando há políticos entre os membros da igreja?

Por alguns anos vivi essa situação complicada numa das igrejas que pastoreei. Não foi nada fácil! 

A presença de pessoas que exercem cargos políticos pode trazer oportunidades de testemunho e serviço, mas também exige sabedoria pastoral para evitar privilégios constrangimentos e conflitos de interesses.

Em resumo, considero importantes os seguintes cuidados:

    • A igreja não deve se orgulhar com a presença de um político. A presença de uma autoridade pública entre os membros não torna a igreja mais importante, nem deve ser motivo de vaidade ou de promoção institucional. 

    • O político deve ser tratado como qualquer outro membro. A igreja não deve dispensar tratamento privilegiado e honras especiais a uma autoridade por causa de sua posição, fama ou influência. Tiago adverte contra a acepção de pessoas na comunidade cristã (Tiago 2.1-4). O respeito devido ao cargo público não justifica favoritismo dentro da igreja.

    • A igreja não deve pedir privilégios aos políticos evangélicos, Nem mesmo àqueles que a frequentam. A proximidade e o diálogo com uma autoridade, entretanto, pode facilitar ajuda em questões de interesse público. 

Por lei e por ética, os governantes não podem favorecer uma igreja, uma religião, uma instituição ou grupo. Eles governam para todos. 

Conclusão: Política, responsabilidade e oração

A participação  dos cristãos na política exige vocação, preparo, integridade e compromisso com o bem comum.

Da mesma forma a igreja precisa orientar seus membros à luz das Escrituras, sem se transformar em instrumento de partidos ou campanhas eleitorais.

Havendo políticos entre seus membros, a igreja deve acolhê-los como irmãos, oferecer-lhes assistência espiritual, orar por eles e cobrar coerência entre a fé professada e a conduta política. 

Deus abençoe o segundo turno das nossas eleições! Que afaste nossos governantes da ganância e da corrupção e os conduza por caminhos de justiça, sabedoria e responsabilidade.

Que nós, como cristãos, saibamos exercer nossa cidadania com consciência, respeito e fidelidade aos princípios da Palavra de Deus..

Pr. Eber Lenz César

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