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Política, Bíblia e Igreja – I

Em setembro de 2002, dias antes das eleições daquele ano, os jovens da Igreja que eu estava pastoreando, no Rio de Janeiro, pediram uma reunião comigo a fim de discutirmos questões relacionadas à política na Bíblia e na igreja. 

Posteriormente, suas perguntas e nosso debate foram elaborados em um artigo.

Esta mensagem é uma versão reescrita e resumida da primeira parte daquele debate, a parte mais extensa.  

Trata-se de uma síntese da história bíblia destacando a soberania de Deus em cada circunstância e sobre reinos e reis.

1. A Bíblia trata de política?

Sim. A Bíblia não usa o termo, mas suas histórias têm sempre um contexto político. 

Na época de Abraão, Isaque e Jacó, o sistema de governo era Patriarcal. Os clãs eram governados pelos respectivos patriarcas. Deus falava com eles claramente. 

Circunstâncias adversas, levaram José, filho de Jacó, para o Egito. Ele sofreu como escravo e prisioneiro. Mas foi como Deus dirigiu sua vida e, por fim, o fez Governador do Egito (Gn 45.4-8). 

José pôde levar sua família, os hebreus, para o Egito. Séculos antes Deus tinha dito a Abraão que faria isto… (Gn 15.13). 

Do Egito a Canaã

Entretanto, quando o Faraó, amigo de José, morreu, os novos governantes escravizaram os hebreus, tal como Deus havia dito que aconteceria.  

Passados cerca de 400 anos, Deus enviou Moisés para libertá-los e levá-los de volta para a Terra Prometida. Deus tinha dito que faria isso também.

Josué foi o instrumento de Deus na conquista da Palestina, a Terra Prometida. Só foi possível com repetidas e extraordinárias intervenções de Deus.

Juízes e reis

Com a morte de Josué, Deus levantou os chamados Juízes, para conduzir as guerras de Israel e julgar as causas do povo. Até então, o sistema de governo era Teocrático.

O último Juiz foi Samuel, que também exerceu o ministério profético. Com a permissão e direção de Deus, ele conduziu a transição da Teocracia par a Monarquia. 

A Monarquia de Israel

A Monarquia unificada durou 120 anos durante os quais sucederam-se no trono os reis Saul, Davi e Salomão. 

Entretanto, depois da morte de Salomão, o reino se dividiu em dois: Israel ao norte, Judá ao sul.

Houve bons e maus reis (I Re 15.34; II Re 12.4). Por intermédio deles, Deus cumpriu seus propósitos.

Exílio na Babilônia

Quando o povo se afastou de Deus e caiu na idolatria, Deus usou a política imperialista da Assíria e da Babilônia para discipliná-los.

O Reino do Norte, Israel, foi conquistado pelos Assírios em 721 a.C. O reino do Sul, foi destruído pelos Babilônios em 586 a.C.

Milhares de judeus foram levados para o exílio, na Babilônia, cujo rei era Nabucodonosor.

O Exílio durou 70 anos. Tudo de acordo com as advertências de Deus por meio dos profetas.  (Jr 25.11-12). 

Retorno do Exílio

Quando Ciro, rei da Pérsia, conquistou o Império Babilônico, em 539 a.C., logo no primeiro ano de seu governo, surpreendentemente, ele autorizou o retorno dos judeus à Palestina.

Ele não sabia, mas estava cumprindo promessas de Deus a Israel (Jr 29.10). 

Milhares de judeus retornaram à Palestina. Entre eles os líderes Zorobabel, Estras e Neemias, que, com a bênção de Deus, reconstruíram os muros e o templo de Jerusalém.  

Período intertestamentário 

Então, chegamos ao chamado Período Intertestamentário: 400 anos entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento.

Esse período é chamado Período do Silêncio porque, por todos aqueles anos, Deus não se manifestou; não houve profetas. 

Entretanto, isto não significa que Deus não estava agindo para cumprir seus propósitos. Ele estava.

  • Alexandre, o Grande, fundou e expandiu o Império Grego.
  • O Império Grego foi conquistado pelo Império Romano.
  • Os romanos assimilaram a cultura grega, inclusive a língua, e a difundiram.

Deus estava preparando o cenário para o Cristianismo!

Roma, Jesus e Paulo

Jesus nasceu nos dias de César Augusto, o primeiro imperador romano.

O recenseamento decretado pelo imperador possibilitou o nascimento de Jesus em Belém, de acordo com os planos de Deus  (Lc 2.1-7).

Deus usou a relativa estabilidade do Império Romano, suas estradas e a língua grega para mais depressa implantar sua Igreja e difundir o Evangelho. 

O Novo Testamento foi escrito em grego e Paulo pôde viajar por quase todo o império, pregando o evangelho e plantando igrejas.

O cristão e os governantes

Alguns judeus, querendo colocar Jesus em dificuldade, perguntaram a ele se deviam ou não pagar tributos a César, o Imperador Romano. 

Jesus lhes disse: 

“Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mc 12.17). 

Em outras palavras: 

“Reconheçam as circunstâncias políticas em que você estão inseridos e as obrigações que lhes são impostas. Cumpram seus deveres para com o Estado, e também seus deveres para com Deus. Uma coisa não exclui a outra”. 

Paulo ensinou respeito e obediência às autoridades constituídas. Disse que elas são “ministros de Deus”, até mesmo as que não têm o temor do Senhor (Rm 13.1-6).

E se a autoridade é corrupta e perversa?

Esta é uma questão delicada.

O que fazer quando um governante desrespeita as leis, os direitos humanos, e se tornar corrupto, tirano, cruel, ou até mesmo um genocida? 

A primeira coisa é orar com fé e perseverança, como recomendado pelo apóstolo Paulo:  

“Exorto que se use a prática de… orações … em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade…” (I Tm 2.1-2).

Você sabia que, quando o apóstolo escreveu essas palavras, o imperador era Nero, lembrado como um dos mais corruptos e cruéis da história?

O que podemos esperar que o Soberano Deus faça em resposta às nossas orações pelos autoridades corruptas?

Deus pode mudar o coração, isto é, o caráter das autoridades. O  sábio rei Salomão disse: 

“Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer o inclina” (Pv 21.1)

Deus também pode remover a autoridade de sua posição. Daniel corajosamente disse ao rei Nabucodonosor, um rei orgulhoso e perverso:

“Deus é quem remove reis e estabelece reis” (Dn 2.21).  

Não demorou e esse mesmo rei teve um sonho perturbador: No sonho, um  anjo lhe disse que  Deus iria humilhá-lo e quebrar seu orgulho. O anjo confirmou as palavras de Daniel: 

“O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer …” (Dn 4.17). 

E quanto a obediência às autoridades?

O apóstolo Pedro recomendou: 

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele…” (I Pe 2.13-14).

Entretanto, o mesmo apóstolo, e outros com ele, quando proibidos de falar de Jesus, disseram:

“Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois não podemos deixar de falar das coisas que vimos ouvimos” (At 4.19-20).

Quando, posteriormente, as mesmas autoridades os ameaçaram por terem continuado a pregar, os apóstolo disseram: 

“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).  

Porém, essa corajosa desobediência às autoridades só se justifica quando é mesmo em obediência a Deus.   

Nestes tempos de tensão política e incertezas que estamos vivendo em nosso país, é da máxima importância:

  • Recordar a história bíblica, e observar o agir soberano de Deus em cada situação. 
  • Observar também que Deus soberanamente permitiu e usou bons e maus governantes. 
  • Orar com fé e perseverança por nossos governantes, na certeza de que Deus pode transformá-los ou remove-los.
  • Obedecer às autoridades enquanto suas ordens e leis não colidirem claramente com a vontade revelada de Deus.

O mais importante é reconhecer a soberania de Deus em todas as circunstâncias e sobre todos, incluindo os governantes mais poderosos. E confiar!

Que Deus abra os nossos olhos espirituais e nos faça ver o que o profeta Isaías viu justamente num tempo de crise política: 

“Eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono” (Is 6.1). 

Pr. Eber Lenz César

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