Nesta série, temos visto como as características e funcionalidades dos nossos olhos, e também suas doenças, podem ilustrar aspectos importantes da nossa visão espiritual.
Por isso, já falamos de miopia espiritual, hipermetropia espiritual, cegueira espiritual e acomodação espiritual.
Nesta mensagem, vamos refletir sobre a adaptação espiritual.
A adaptação é outra funcionalidade maravilhosa dos nossos olhos. Ela pode ocorrer simultaneamente com a acomodação.
A acomodação ajusta o foco. Podemos ver claramente um objeto próximo e, em segundos, focar em outro, mais distante.
Porém, a adaptação ajusta a quantidade de luz que entra nos olhos. Conforme haja maior ou menor claridade, nossas pupilas se dilatam ou se contraem, regulando a entrada de luz necessária para enxergarmos.
Por isso, quando saímos de um ambiente muito iluminado e entramos em uma sala escura, ou fazemos o contrário, nossos olhos levam algum tempo para se adaptar. .
Assim como a acomodação, a adaptação também pode nos ensinar verdades espirituais.
Precisamos focar nas coisas que Deus quer que vejamos, mas também precisamos enxergá-las sob a luz de Deus ou de Cristo.
Podemos ler a Bíblia como lemos qualquer outro livro. Porém, se quisermos conhecer o Deus da Bíblia e compreender seus ensinos, precisamos orar como o salmista:
“Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei…” (Sl 119:18).
E o próprio salmista acrescenta:
“A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples” (Sl 119.130).
Podemos também traçar nossos próprios caminhos e seguir em frente, como quem caminha às escuras. Mas, se quisermos evitar erros, tropeços e quedas, precisamos levar conosco a luz de que falou o mesmo salmista:
“Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os meus caminhos” (Sl 119.105).
O apóstolo Paulo orava por seus irmãos em Éfeso:
“…que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da Glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração…” (Ef 1.15-18).
Que imagem linda! “iluminados os olhos do vosso coração!”
Às vezes, a luz de Deus incide objetivamente sobre aquilo que ele quer que vejamos com clareza: o caminho a seguir, um texto bíblico, uma doutrina ou uma verdade espiritual.
Outras vezes, essa luz é interior, subjetiva e afetiva. Ela ilumina o coração, não propriamente o cérebro.
É uma luz forte, e os olhos do nosso coração podem levar algum para se adaptar.
Nesse processo, adquirimos o “espírito de sabedoria e de revelação” e, também, um conhecimento de Deus que não é apenas intelectual, mas relacional. É o que a Bíblia chama de comunhão.
Paulo conhecia, por experiência própria, essa “iluminação dos olhos do coração”,
Quando ele ainda era Saulo, um temido perseguidor dos cristãos, viajou para Damasco com a intenção de prender e até matar os cristãos que ali encontrasse.
Porém, às portas da cidade, aconteceu o que podemos chamar de “o milagre da luz”.
Uma luz intensa brilhou ao redor de Saulo. Ao mesmo tempo, ele ouviu uma voz, que lhe disse:
“Saulo, Saulo, por que me persegues?”
Assustado, Saulo perguntou:
“Quem és tu, Senhor?
E a resposta foi:
‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues…’” (At 9.1-9).
Foi o bastante.
A luz de Cristo cegou temporariamente os olhos físicos de Saulo, mas iluminou fortemente os “olhos do seu coração”.
Sem essa luz, Saulo via Jesus com maus olhos – um falso mestre, um farsante, um blasfemo.
Mas então, com outros olhos – os do coração – ele passou a ver Jesus como o Filho de Deus, o Messias, seu Salvador e seu Senhor!
A mudança foi radical!
Saulo passou das trevas para a luz. Sua adaptação foi rápida!
O mais terrível perseguidor de Cristo tornou-se o mais eloquente e dedicado pregador da mensagem de Cristo.
Porém, há pessoas que, ao contrário de Paulo, não se aproveitam da luz que brilha em seu caminho – seja por meio de um texto bíblico, de um testemunho cristão ou de uma pregação.
O apóstolo João, referindo-se a Jesus, disse:
“A luz veio ao mundo, e o homens amaram mais as trevas do que a luz…” (Jo 3.19).
Muitos não chegam a amar as trevas. Mas, descuidadamente, afastam-se um pouco da luz.
Passam por uma espécie de penumbra espiritual e, se não se arrependem e voltam, acabam nas trevas.
É o que pode acontecer quando seguidores de Cristo – a Luz do mundo – perdem o interesse pelo estudo bíblico, pela prática da oração, pelos cultos da igreja e adotam procedimentos característicos deste “mundo tenebroso” (Ef 6.12).
Pouco a pouco, os olhos do seu coração se adaptam.
Acostumam-se com a penumbra ou mesmo com a escuridão. E, depois de algum tempo, já não percebem mais a diferença.
Por isso, Paulo escreveu:
“Não vos conformeis com este século…” (Rm 12.2)
Precisamos estar atentos. A adaptação espiritual pode nos aproximar da luz, mas também pode nos acostumar com as trevas.
Que a luz de Cristo brilhe sempre e intensamente em nossos caminhos e, principalmente, em nosso coração.
Que se cumpra em nossa vida essa promessa bíblica:
“A sabedoria entrará no teu coração… para te livrar do caminho do mal… dos que deixam o caminho da retidão, para andarem pelos caminhos das trevas” (Pv 2.10-13).
Pr. Éber Lenz César