Ao contrário da miopia, da hipermetropia e da cegueira, a #acomodação e a #adaptação dos nossos olhos não são anomalias ou doenças. São mecanismos maravilhosos que ocorrem ao mesmo tempo e alternadamente em nossos olhos. São muito importantes para uma boa visão.
As doenças dos olhos físicos ilustram as limitações e deficiências dos olhos da nossa alma. Por outro lado, a acomodação e a adaptação são excelentes metáforas para as possibilidades dos nossos olhos espirituais.
Neste artigo, vamos refletir sobre acomodação espiritual.
A acomodação é a capacidade que os nossos olhos têm de modificar o formato dos cristalinos – as lentes dos nossos olhos – e, assim, ajustar rapidamente o foco nas coisas que queremos ver, tanto as que estão perto como as que estão longe.
Da mesma forma, os olhos da nossa alma precisam ajustar constantemente o foco, para que possamos enxergar, conforme a situação, tanto o que está perto como o que está longe.
Às vezes, prestamos atenção apenas no que está acontecendo hoje. Se estamos felizes, bem resolvidos, com dinheiro e saúde, podemos deixar de olhar para a frente.
Ficamos, então, na chamada #zona de conforto. Não desejamos, não buscamos e nem sequer oramos por algo diferente ou melhor!
Foi, de certa forma, o que aconteceu com os discípulos Pedro, Tiago e João. Eles presenciaram a #transfiguração de Jesus. Que visão gloriosa!
Pedro, sempre mais falador, disse a Jesus:
“Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas…” (Mc 9.5).
Em outras palavras: “Isso está bom demais! Vamos ficar por aqui!”
Entretanto, Jesus desceu do monte com eles e seguiu em frente, ensinando, curando e preparando aqueles e outros discípulos para serem seus futuros mensageiros.
Nos dias seguintes, Jesus falou aos discípulos sobre sua morte e ressurreição iminentes (Lc 9.30-32).
Com os olhos de sua alma pura e amorosa, Jesus via a necessidade presente das multidões. Ao mesmo tempo, enxergava a futura necessidade de se sacrificar pelos pecadores.
E, para além da cruz, ele via também a ressurreição, o maior e mais significativo de todos os #milagres.
Seus discípulos, porém, “nada compreenderam acerca destas coisas…” (Lc 18.34; Mr 9.32).
Os olhos de sua alma ainda não haviam se acomodado o suficiente para focar a cruz e, depois dela, o túmulo vazio!
Algumas das graciosas promessas de Deus podem estar se cumprindo aqui e agora. Outras, se cumprirão num futuro próximo. Ainda outras só se cumprirão no fim dos tempos.
Essas promessas só podemos contemplar com os olhos da fé.
A certeza antecipada de sua realização é o que a Bíblia chama de #esperança!
Na carta aos Hebreus, no Novo Testamento, temos um capítulo inteiro sobre esse tipo de fé. O autor começa dizendo:
“Fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1).
Na sequência, Hebreus apresenta uma lista dos #heróis da fé no Antigo Testamento:
“Todos eles morreram na fé e, embora não tenham recebido todas as coisas que lhes foram prometidas, as avistaram de longe…” (Hb 11.13).
Eles não chegaram a ver fisicamente o cumprimento de todas as promessas. Entretanto, pela fé, conseguiram enxergá-las de longe.
Outro exemplo é o do apóstolo Paulo:
“Considero que o nosso sofrimento de agora não é nada comparado com a glória que ele [Cristo] nos revelará mais tarde… Recebemos essa esperança quando fomos salvos…” (Rm 8.18,24).
Depois daquela conversa evangelística de Jesus com a mulher samaritana, que resultou na conversão dela e de muitos de seus conterrâneos (Jo 4), os discípulos de Jesus só conseguiam pensar em comida.
Além disso, como todos naquela terra, eles estavam pensando na próxima colheita. Faltavam ainda quatro meses.
Jesus, porém, estava focado nas necessidades espirituais e morais de pessoas como a samaritana e seus conterrâneos. Então lhes disse:
– Eu tenho um tipo de alimento que vocês não conhecem.
Eles, ainda pensando no lanche da tarde, perguntaram:
– Será que alguém lhe trouxe comida?
Jesus continuou:
– Meu alimento consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e em terminar sua obra. Vocês não costumam dizer: ‘Ainda faltam quatro meses para a colheita’? Mas eu lhes digo: Despertem e olhem em volta. Os campos estão maduros para a colheita… (Jo 4.31-35).
Em outras palavras:
Não se preocupem tanto com a comida e outras necessidades materiais. O mais importante é cumprir a missão que o Pai nos confiou.
Além disso, não há razão para esperar mais quatro meses. A oportunidade está diante de vocês.
A samaritana estava receptiva, pronta para crer no Messias, e mudar de vida; seus conterrâneos a ouviram e creram também.
Então, foquem no que tem maior importância e comecem a trabalhar nisso. A hora é agora. Os campos estão brancos para a colheita…
Deus criou estes nossos olhos lindos e fantásticos com essa incrível capacidade de acomodação. Por isso, essa capacidade pode ser usada como uma bela metáfora para a acomodação espiritual.
Deus quer, sim, que sejamos felizes e realizados com as bênçãos que ele já nos deu. Além disso, quer que sejamos responsáveis diante das oportunidades presentes, inclusive – e principalmente – aquelas relacionadas à nossa missão no mundo .
A acomodação espiritual nos ajuda a focar no que está perto. Ela nos ensina a alegrar-nos, desfrutar e agradecer pelas bênçãos que Deus já nos concede hoje.
Entretanto, Deus quer também que, alternadamente, sejamos capazes de focar no amanhã e até mesmo num futuro mais distante, incluindo o fim dos tempos.
Essa acomodação espiritual traz conforto e encorajamento. Fortalece a fé e alimenta a esperança.
Talvez essa seja uma das grandes necessidades dos nossos olhos espirituais: focar aqui e lá — no que está perto e no que está longe, incluindo o que só podemos ver com os olhos da fé.
Precisamos de olhos que veem e de um coração disposto a ajustar o foco continuamente.
Éber Lenz César
1. Introdução e Miopia espiritual