O termo adoração é usado indiscriminadamente, com prejuízo para seu sentido religioso e bíblico. Dizemos : “Eu adoro viajar”, “Eu adoro esse ator”, etc. Há até um site intitulado “Eu adoro cinema”. Não quero ser meticuloso demais, e muito menos, escrupuloso com esse jeito popular de dizer “Eu gosto muito de…”. Acontece que eu gosto muito de refletir e aplicar o sentido bíblico dos termos, principalmente aqueles que têm um sentido teológico, espiritual e prático. É o caso do termo em questão: adoração.
Precisamos rever e enfatizar o que a Bíblia diz sobre a verdadeira adoração. Jesus disse à mulher samaritana: “Está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. O pai procura pessoas que o adorem desse modo. Pois Deus é Espírito, e é necessário que seus adoradores o adorem em espírito e em verdade […]” (Jo 4.23-24). O que isto significa?
Em espírito e em verdade
“Em espírito” porque Deus é Espírito. Em espírito porque o fazemos iluminados e capacitados pelo Espirito Santo. Por isso Jesus disse “chegou a hora”, chegou o tempo em que, depois de sua morte, ressurreição e ascensão, o Espírito desceria para habitar, dirigir e capacitar os crentes. O apóstolo Paulo escreveu aos crentes Romanos: “Vocês receberam o Espírito de Deus […]. Agora nós o chamamos ‘Aba, Pai’, pois o seu Espírito confirma a nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.15-16).
“Em verdade” porque verdadeira, sincera e, sobretudo, com conhecimento da verdade de Deus, verdade esta revelada nas Escrituras e aclarada em nossas mentes pelo Espírito. Jesus prometeu: “Quando vier o Espírito da verdade, ele os conduzirá a toda a verdade” (Jo 16.13). A adoração é de acordo com a verdade das Escrituras e, portanto, de acordo com a vontade de Deus. É obra do Espírito no crente. Somente os que, de fato, nasceram de novo e amam o Senhor e a sua Palavra podem adorar “em espírito e em verdade”.
Outros aspectos da verdadeira adoração
Há décadas, o piedoso pastor A.W.Tozer escreveu sobre a verdadeira adoração.
“Fomos criados para adorar […]. A adoração é, porém, a joia ausente no meio evangélico moderno. Somos organizados, trabalhamos, temos nossos compromissos. Temos tudo, mas existe uma coisa que as igrejas, até mesmo as evangélicas, não têm: a capacidade para adorar. Não estamos cultivando a arte da adoração […].”
Na sequência, Tozer comenta alguns outros elementos da adoração. Menciono apenas dois, e muito resumidamente.
“Confiança ilimitada. Não podemos adorar um Ser em quem não confiamos. A confiança é necessária para haver respeito, e o respeito é necessário para a adoração. A adoração cresce ou diminui dependendo da nossa atitude para com Deus, se o consideramos grande ou pequeno. Davi fez o convite: “Engrandecei o Senhor comigo, e todos, a uma, lhe exaltemos o nome” (Sl 34.3). Não se trata de tornar Deus grande, pois não podemos fazer isso. O que podemos fazer é vê-lo grande […]. Já ouvi toda espécie de pregadores […]. Os que mais me ajudaram foram aqueles que se mostraram reverentes na presença do Deus de quem falavam […].
“Admiração e amor. A adoração flui naturalmente, com temor e reverência, de um coração que admira e ama a Deus por aquilo que ele é, grande e temível. Às vezes me dirijo a Deus dizendo: ‘Senhor, mesmo que nunca mais respondas às minhas orações, continuarei ainda assim a adorá-lo por aquilo que já fizeste.’“ (1)
Sim, Deus é “grande e temível” (Dt 10.10; Ne 1.5), mas é também um Pai amoroso, gracioso, provedor. “O Senhor é como um pai para seus filhos, bondoso e compassivo para os que o temem” (Sl 103.13). Nós o “tememos” porque é “grande e temível”; nós o amamos e nos achegamos a ele em confiança e amor, porque ele é Pai amoroso e mui querido! Esse conhecimento de Deus, aparentemente contraditório, exige reverência na adoração e, ao mesmo tempo, permite intimidade, liberdade e alegria. A propósito…
O culto deve ser formal ou informal?
Observados os princípios já expostos e os exemplos bíblicos, o culto cristão pode ser mais ou menos formal. O apóstolo Paulo recomendou moderação em tudo (Fp 4.5). A formalidade excessiva apaga o fogo do Espírito, esfria a adoração, engessa os participantes, impede respostas que poderiam ser edificantes, acaba com a alegria. A informalidade excessiva confunde a obra do Espírito, exclui a necessária reverência, o fogaréu se alastra, queima e destrói; as respostas que poderiam ser testemunhos da graça transformadora de Deus, acabam sendo relatos egocêntricos, os mais estranhos… O apóstolo Paulo diria: Uma loucura! (I Co 14.23).
Cabe aos pastores e aos presbíteros, e por que não à congregação, primar pelo equilíbrio. “Ordem e decência”, como disse o apóstolo Paulo (I Co 14.40), Será tanto mais fácil se o propósito de todos for, de fato, agradar a Deus e edificar a igreja.
Precisamos todos nos preparar para o culto, para a adoração, para acolher a Palavra em nosso coração. Precisamos orar pelo culto, pela equipe de louvor, pelo pregador, pelos participantes, pelos visitantes. Precisamos nutrir boas expectativas em relação ao culto e à pregação da Palavra. Precisamos estar atentos, permanecer no espírito de adoração e, então, praticar o que ouvimos e aprendemos (Mt 7.24-27; Tg 1.21-27).
Partes do culto
A prática atual nas igrejas reformadas e organizadas geralmente inclui:
Louvor. Pode ser uma oração, a leitura de um texto bíblico apropriado ou um cântico. A música de louvor será ou deve ser sempre uma evidência da plena atuação do Espírito Santo na congregação: “Sejam cheios do Espírito, cantando salmos, hinos e cânticos espirituais, entre si e louvando o Senhor de coração com música” (Ef 5.18-19). Não cabe aqui um comentário mais detalhado sobre o que vem acontecendo em muitas igrejas com o dito louvor: Som excessivamente alto (e perturbador), luzes, fumaça, danças, etc. Alguns do cânticos contemporâneos são frases soltas, repetidas, muitas vezes sem base bíblica. Salvo excessões, não se cantam mais pelo menos alguns dos antigos e preciosos hinos, que são bem alicerçados na Palavra. Louvo a Deus pelos Coordenadores de Ministério de Louvor, Corais e Grupos de Louvor que se dedicam a este importante ministério e o fazem com amor, dedicação e zelo.
Confissão de pecados. Leitura de um texto bíblico apropriado, uma palavra pastoral, um chamado ao arrependimento, um tempo para oração silenciosa, um hino…
Pregação. Pregadores famosos, pastores cultos e piedosos escreveram livros preciosos sobre a importância da pregação expositiva, aquela que sequencialmente e fielmente expõe os ensinos da Palavra de Deus. Mas a pregação pode ser temática também. O importante é que seja bíblica. O poder está na Palavra, não na intelectualidade, na retórica, na performance do pregador, mesmo quando Deus o capacita com estas habilidades e as usa. Também, claro, é da máxima importância, que o pregador viva o que prega. Veja Mt 23.1-3 em contraste com I Ts 1.5.
Sacramentos. O batismo, quando há novos convertidos, e a Santa Ceia do Senhor. O modo do batismo (aspersão, imersão ou efusão) varia, mas seu significado e valor é o mesmo. Geralmente é acompanhado por uma confissão de fé do batizando. O modo de celebrar a Santa Ceia, assim como sua frequência, também varia, mas deve lembrar as palavras do Senhor Jesus quando a instituiu (Mt 26.26-30) e a orientação do apóstolo Paulo em I Co 11.17-34. Esta celebração recorda um passado triste (a morte de Cristo por nossos pecados); fortalece a presente comunhão dos crentes com o Senhor e uns com os outros; e proclama um futuro glorioso, quando o Senhor voltará para sua igreja. O teólogo N.T.Wright, lembra que Jesus, ao instituir a Santa Ceia, não deu teorias da expiação ou recitou um credo ou explicou exatamente como a salvação aconteceria. Pelo contrário, “ele lhes deu um ato para executar. Especificamente, ele lhes deu uma refeição para compartilharem. É uma refeição que fala bem mais mais do que qualquer teoria.” (2)
Ofertas. No Velho Testamento, as ofertas sempre fizeram parte da adoração. Então, a adoração envolvia sacrifícios animais, e o povo os trazia e os entregava aos sacerdotes que realizavam os sacrifícios, fossem expiatórios ou de ação de graças. Ao instituir as três grandes festas religiosas em Israel, Deus lhes disse: “Ninguém deve se apresentar diante de mim de mãos vazias” (Êx 23.15, final). Várias passagens do Velho Testamento ordenam a entrega de dízimos e/ou ofertas (Ml 3.10).
Mesmo antes do início da igreja, os magos do oriente que vieram visitar o recém-nascido menino Jesus, quando o viram, “prostrando-se o adoraram; e, abrindo seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra” (Mt 2.11).
O Novo Testamento não exclui a ordenança dos dízimos, mas enfatiza mais as ofertas (II Co 8-9). Jesus, uma vez, postou-se à porta do templo e ficou a observar como as pessoas depositavam no gazofilácio as suas ofertas. Foi quando elogiou a oferta da viúva pobre (Lc 21.1-4). Numa outra ocasião ele ensinou que, antes de ofertar, é preciso acertar pendências relacionais e espirituais: “[…] vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, fazer a tua oferta” (Mt 5.23-24).
A Bíblia incentiva as ofertas como uma forma de expressar nosso reconhecimento de que tudo, afinal, pertence a Deus e nós, seus filhos, somos apenas mordomos do que ele nos confia (Mt 25.14-30). Ofertando nós também expressamos gratidão a Deus por suas provisões; nosso amor e cuidado com os mais necessitados (II Co 8.1-5); nossa visão missionária, uma vez que os ministérios da igreja e a evangelização do mundo custam dinheiro (Fp 4.10-18). Por tudo isso, o culto cristão, desde o começo, incluiu e inclui entrega de ofertas, um ato genuíno de adoração.
Com a missão de plantar uma nova igreja num bairro do Rio de Janeiro, visitei várias vezes a igreja responsável por aquele projeto missionário, uma grande igreja. Os cultos incluíam a chamada Marcha das Ofertas. Após uma leitura bíblica apropriada, muitos da congregação iam à frente depositar nos gazofilácios as suas ofertas. Bonito e significativo!
Oração. É apropriado (e nosso coração pede) que o culto comece e termine com oração. No começo, dizemos a Deus o quanto o admiramos, o quanto o amamos e o quanto desejamos que nossa adoração seja sincera, humilde, reverente, edificante e transformadora. No fim, oramos agradecendo suas bênçãos e pedimos que nos ajude a praticar o que ouvimos, a viver em santidade, a sermos suas testemunhas onde quer que estejamos, na dispersão.
Pode ser que alguns irmãos estejam enfrentando problemas e precisem de encorajamento e oração. Que haja espaço para isso.“Levai as cargas uns dos outros” e “Orai uns pelos outros” (Gl 6.2; F 4.6; Tg 5.16;). Paulo também recomendou a prática de intercessões e ações de graças pelas autoridades e por todos os homens (I Tm 2.1) .
Conclusão.
Se somos verdadeiramente crentes, nossa vida deve ser toda ela uma adoração. A adoração individual, assim como o culto comunitário, devem ser “em espírito e em verdade”, motivadas por admiração, gratidão e amor, e ao mesmo tempo reverente e entusiasta. Deve ser teocêntrica e cristocêntrica. Essa adoração será aceitável a Deus e infundirá nos participantes renovada esperança e mais forte desejo de obedecer e servir ao Senhor.
Que o Senhor nos ajude.
(1) TOZER, A.W.. O Melhor de A.W.Tozer. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP. 1984. pgs. 184-186.
(2) Citado por Tish H. Warren, em seu livro Liturgia do Ordinário, Práticas Sagradas na Vid Cotidiana. Tradução de Guilherme C. Pires. Eds. Pilgrim e Thomas Nelson. São Paulo, SP. 2019. Pg. 90.
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Pr. Éber Lenz César
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