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Polarização – Quando o diferente se torna inimigo

Ideias, opiniões e comportamentos diferentes fazem parte da vida. Afinal, ninguém pensa exatamente como outra pessoa. A diferença pode ser enriquecedora, desde que não se transforme em radicalismo, intolerância e hostilidade.

Mas, infelizmente, é isso que tem acontecido nos últimos anos. A polarização tem separado amigos, criado conflitos nas famílias, dividido igrejas e aprofundado as tensões na sociedade. Embora ela também apareça nos campos teológico, doutrinário e litúrgico, quero tratar aqui principalmente da polarização política.

No Brasil, esse processo vem se intensificando há décadas. As disputas entre PSDB e PT nos anos 1990 e 2000, as manifestações de 2013, a acirrada eleição presidencial de 2014 e, mais recentemente, a disputa entre Bolsonaro e Lula contribuíram para aprofundar as divisões.

Até mesmo nas igrejas ficou difícil conversar sobre política, reconhecer méritos ou apontar erros de um ou outro governante ou partido. Depressa a conversa vira confronto.

O site Coalizão Pelo Evangelho publicou um artigo do Pr. Eduardo Ross, O Evangelho e a Polarização, que descreve bem esse cenário:

“Em vez de pontes, multiplicam-se muros. O ‘outro’ — aquele que pensa diferente, vota diferente, crê diferente — torna-se rapidamente o inimigo a ser combatido.”

O que a Bíblia diz?

A polarização não é apenas um fenômeno político ou social. É também um problema espiritual. A Bíblia não incentiva a indiferença diante da verdade, mas tampouco aprova a hostilidade, a intolerância e a idolatria que frequentemente acompanham as disputas políticas.

1. Nossa lealdade maior pertence a Cristo

Jesus declarou: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Isso não significa que o cristão deva afastar-se da sociedade ou ignorar a política. Somos enviados ao mundo como  “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt 5.13-14). Mas precisamos lembrar de algo fundamental: nossa identidade não está em um partido, uma ideologia ou um líder político. Está em Cristo.

2. Devemos falar a verdade em amor

Nossas convicções precisam estar fundamentadas na Palavra de Deus. O apóstolo Paulo nos exorta a nos apegarmos à verdade para não sermos enganados, e acrescenta: “Falaremos a verdade em amor” (Ef 4.15). Não precisamos relativizar aquilo que cremos ser verdadeiro apenas para evitar conflitos. Mas também não devemos usar a verdade para humilhar, ridicularizar ou destruir quem pensa diferente. Verdade sem amor depressa se transforma em agressividade. Amor sem verdade resulta em omissão. 

3. Sejamos pacificadores

Jesus disse: “Bem-aventurados os pacificadores” (Mt 5.9). Ser pacificador não significa fugir de toda e qualquer controvérsia ou concordar com tudo. Significa discordar sem desrespeitar, sem aborrecer. O pacificador não precisa abrir mão de suas convicções. Ele procura conversar sem transformar o diálogo em uma guerra.

4. A Igreja não pode ser refém de projetos políticos

A missão da Igreja é maior do que qualquer partido ou ideologia. Ela proclama o evangelho, faz discípulos e serve ao próximo. Pode e deve falar sobre justiça, dignidade humana, liberdade religiosa, defesa da vida, honestidade e cuidado com os necessitados, tudo isto sem reduzir o evangelho a uma plataforma política. Quando a Igreja se identifica excessivamente com um projeto político, corre o risco de perder sua liberdade para exercer sua função profética diante de qualquer governo.

5. Precisamos ter discernimento

Vivemos cercados de informações, opiniões, fake news, vídeos fora de contexto, discursos inflamados e manipulações. A Inteligência Artificial (IA) veio para facilitar muitas coisas, mas já está sendo usada para enganar. Por isso, precisamos de discernimento. Antes de compartilhar uma notícia, devemos verificar os fatos. Antes de condenar alguém, devemos ouvir. Antes de repetir uma acusação, devemos procurar saber se é verdadeira. Nenhum político, partido ou grupo humano possui toda a verdade. Todos podem acertar e errar. Por isso, precisamos de humildade para ouvir, aprender e até reconhecer quando estamos equivocados.

Conclusão

Talvez o maior problema da polarização não sejam as opiniões diferentes, mas aquilo que fazemos com elas. Quando colocamos nossa esperança em políticos, partidos ou ideologias, eles acabam ocupando em nosso coração um lugar que pertence somente a Cristo. O cristão pode participar da política. Pode votar, defender suas convicções e até criticar aquilo que considera errado. Mas sua preferência política não é sua identidade, e seu adversário não é um inimigo!

Nossa esperança não está em Brasília, nem em Washington, nem em qualquer palácio ou governo. Nossa esperança está em Cristo, o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Por isso, enquanto outros levantam muros, o cristão deve procurar construir pontes. Enquanto outros alimentam o ódio, o cristão deve praticar o amor. Enquanto outros espalham acusações, o cristão busca a verdade.

E, independentemente de quem esteja no poder, seguimos o conselho do apóstolo Paulo: “Exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador […]” (1Tm 2.1-3).

 

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