Um testemunho. Aconteceu há muitos, muitos anos, quando eu ainda era jovem… Eu estava no Seminário me preparando para ser pastor. Nas férias, a direção enviava os seminaristas para um estágio em igrejas e campos missionários. Eu fui enviado para uma área rural no interior no Mato Grosso. Havia ali umas casas pobres, umas poucas famílias da região e outras vindas de Sao Paulo. O Governo tinha oferecido terras a quem quisesse tentar a vida no campo. Moças bonitas tiveram que deixar a escola e acompanhar seus pais.
Uma dessas moças tinha facilidade para contar histórias e cantar. Ajudou-me no meu trabalho durante aquele mês, principalmente com as crianças. Ficamos amigos. No último dia, depois do culto da noite, todos foram se deitar. Todos, menos a moça… e eu. Mas, não se apresse a imaginar coisas!
Sentamo-nos num banquinho na frente da pequena e humilde casa onde eu estava hospedado. Nenhuma viva alma, nenhum poste de luz; somente minha pequena lanterna. Na frente, a estrada sem trânsito; atrás, a porta do meu quarto e nenhuma passagem para outro cômodo. Conversamos alguns minutos e a moça começou a chorar… Sabe como é. Fiquei com pena. Uma moça bonita, prendada, naquela mato… Tive vontade de consolá-la, dar-lhe algum carinho, segurar suas mãos… Fiquei em conflito! Conhecia minha natureza afetiva, carinhosa, e tinha plena consciência das inclinações da carne. Achei que se segurasse as mãos da moça (só isso), não ficaria só nisso. Estava tudo fácil demais. Pensei no compromisso que eu tinha com Márcia, minha namorada e quase noiva; pensei na minha responsabilidade como seminarista que estava ali pregando a Palavra de Deus; pensei nas possíveis consequências, inclusive um sofrimento ainda maior para a moça. Então, iluminei seu rosto com minha lanterna e lhe disse: “Vai para sua casa, vai. Amanhã a gente se despede.” Felizmente ela foi sem relutância.
No dia seguinte, cedo, quando o ônibus parou na estrada, o grupo todo estava ali para se despedir de mim com amizade e gratidão. A moça, no meio deles, apenas acenou de longe.
Nada como uma boa consciência como a que o apóstolo Paulo recomendou a Timóteo: “[…] combate o bom combate, mantenha a fé e a boa consciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé” (I Tm 1.18-19). É muito bom saber que fizemos a coisa certa, que agradamos a Deus, que fomos coerentes com o que cremos e ensinamos. Agradeci muito a Deus.
Assim que cheguei de volta ao Seminário, escrevi uma carta aos meus pais relatando o ocorrido e agradecendo a formação cristã que me deram na minha infância e adolescência. Numa primeira visita a Márcia, contei-lhe o que aconteceu e o que não aconteceu. Ela ficou grata e ainda mais amorosa. Mas rasgou a foto da moça… Entendi.
Não quero, de modo algum, passar a ideia de que eu era ou pensava ser melhor do que os outros jovens. Sabe Deus quantas lutas tenho tido com aquela coisa que o apóstolo Paulo chamou de “carne” (Gl 5.13, 16-22). E Deus sabe também que nessa “batalha espiritual” a carne venceu algumas vezes. Então, eu tive que lidar com a culpa e a tristeza, e começar tudo de novo, tudo ou quase tudo.
Naquela época, eu pensava que, passados os anos de juventude, cessariam as tentações e as lutas. Hoje, com 83 aos, posso dizer: Não acabam não! São diferentes; supostamente temos mais maturidade; mas a luta continua. Só vai acabar com a morte ou com a volta do Senhor Jesus. Então, como disse o apóstolo João: “[…] seremos semelhantes a ele” (I Jo 3.2; Ap 22.20).
Eu e Márcia nos casamos dois anos após essa minha experiência. Seguindo e servindo a Cristo, usando a Bíblia como nosso manual de vida, temos vencido as dificuldades normais de todo casamento e permanecido fieis um ao outro. Temos três filhos e cinco netas. Um procedimento errado com aquela moça teria posto tudo a perder.
Jovem querido, espero que esse testemunho o fortaleça no dia da tentação. Mais que tudo, precisamos todos estar firmados em Cristo e em sua Palavra. “Ele foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4.14-16).
Éber Lenz Cesar. ([email protected])
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