A Doutrina Mordomia
Há os que afirmam que o dízimo é coisa do Velho Testamento, uma exigência da Lei Mosaica para os que viveram naquele tempo, e que nós, cristãos, não temos a obrigação de pagá-lo. Estão certos, pelo menos em parte. Como disse o apóstolo Paulo, nós, cristãos, não estamos debaixo da lei; estamos debaixo da graça! (Rm 6.14). Mas é justamente por isso que podemos e devemos fazer ainda melhor, pois a graça é superior à Lei. A Lei obriga; a graça motiva!
Voltemos ao exemplo de Abraão, referido na mensagem anterior. A Lei ainda não tinha sido dada; Abraão não tinha obrigação de dar o dízimo dos bens que resgatou das mãos dos reis que saquearam Sodoma; mas ele o deu por gratidão, reconhecendo que sua vitória tinha sido uma bênção de Deus. Entregamos dízimos e fazemos ofertas pelos mesmos motivos. São motivos mais fortes e maduros que a mera obediência a um mandamento.
O dízimo de Abraão é comentado em Hebreus 7.1-10. O autor dessa carta argumenta que o Sacerdócio de Cristo é superior ao sacerdócio de Melquisedeque, que é uma figura de Cristo no Velho Testamento. De modo que, quando Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, ele o deu, em figura, ao próprio Cristo. Se o crente Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, tipo de Cristo, os crentes, hoje, devem dá-lo Àquele que é “Sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (v.17).
Jesus não anulou a Lei Mosaica; melhor dizendo, as leis morais do Velho Testamento que se aplicam tanto a judeus como a gentios, em todos os tempos. Entretanto, ele condenou as motivações egoístas, religiosas, tradicionais e incoerentes. Por exemplo: Em Mateus 23.23 e Lucas 11.42, Jesus censura os fariseus porque, embora fossem zelosos na prática do dízimo, negligenciavam os preceitos mais importantes da Lei, tais como a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Jesus lhes disse: “Vocês devem praticar estas coisas [justiça, a misericórdia e a fidelidade], sem omitir aquelas [os dízimos].” A entrega legalista e formal de dízimos não tem valor se a vida não exibe o fruto do Espírito; por outro lado, o crente que pratica os preceitos mais importantes da Lei de Deus não está, por isso, dispensado de dar dízimos e ofertas.
Na parábola do Fariseu e do Publicano, em Lucas 18.12, o primeiro diz, orgulhosamente: “[…] jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” Porque a parábola condena a atitude orgulhosa do fariseu, alguns vêem aqui uma indicação de que Jesus era contrário ao dízimo. Os vs. 9 e 14, entretanto, esclarecem que o que Jesus condenou não foram as práticas do jejum e do dízimo, mas a exaltação própria através dessas práticas (Ver Mt 6.1-2,5,16).
4. Dízimos e/ou ofertas?
Além dos dízimos, os crentes do Velho Testamento davam ofertas, muitas ofertas. Por ocasião da construção do Tabernáculo, no deserto, o Senhor ordenou a Israel, por boca de Moisés: “Separem dentre os seus bens uma oferta para o Senhor […] de coração disposto […]. Então toda a comunidade de Israel […] todos os que estavam dispostos, cujo coração os impeliu a isso, trouxeram uma oferta ao Senhor para a obra do Tabernáculo […]. Todos os israelitas que se dispuseram, tanto homens como mulheres, trouxeram ao Senhor ofertas voluntárias […]” (Êx 35.5,20,21,22,29).
Mais à frente, lemos que “o povo continuava a trazer voluntariamente ofertas, manhã após manhã. Por isso, todos os artesãos habilidosos que trabalhavam no santuário interromperam o trabalho e disseram a Moisés: ‘O povo está trazendo mais do que o suficiente para realizar a obra que o Senhor ordenou’. Assim, o povo foi impedido de trazer mais […]” (Êx 36.5-7). Maravilha!
O Novo Testamento fala mais de ofertas do que propriamente de dízimos. Jesus observou as ofertas que os ricos depositavam no gazofilácio, à porta do templo, e também a oferta de uma viúva pobre. E comentou: “Esta viúva pobre deu mais do que todos. Porque todos estes deram como oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua pobreza deu tudo o que possuía, todo o seu sustento” (Lc 21.1-4).
Na época de Paulo, os cristãos da Macedônia, que eram pobres e estavam passando por muitas tribulações, “manifestaram abundância de alegria, e […] na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários” numa campanha de arrecadação de fundos para socorrer os cristãos ainda mais pobres da Judéia (II Co 8.2-3). Paulo escreveu aos Coríntios sobre esse exemplo de amor e generosidade e acrescentou: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração […] porque Deus ama a quem dá com alegria” (II Co 9. 7).
5. O sustento do ministério pastoral e missionário
Em nossos dias, a destinação de parte dos dízimos e das ofertas do povo de Deus para o sustento do ministério pastoral e missionário é questionado por alguns. Entretanto, é bíblica e necessária. Nesta mensagem, já explicamos que os sacerdotes e cantores levitas, separados por Deus para os serviços no Tabernáculo e no Templo, eram sustentados com os dízimos do povo.
Em I Coríntios 9 o apóstolo Paulo declara que o princípio do sustento do ministério na dispensação da graça (Novo Testamento, Igreja) é o mesmo que o da dispensação da Lei (Velho Testamento, Sacerdócio). O apóstolo ensina que é dever das igrejas sustentarem seus obreiros e defende seu próprio direito de receber sustento das igrejas (I Co 9. 4,6). Para deixar o assunto bem claro, ele usa figuras que seus contemporâneos podiam entender muito bem (e nós também): “Quem serve como soldado à própria custa? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não bebe do seu leite? […]. Está escrito na Lei de Moisés: ‘Não amordace o boi enquanto ele estiver debulhando o cereal’. Por acaso é com bois que Deus está preocupado? Não é certamente por nossa causa que ele o diz? Sim, isso foi escrito em nosso favor. Porque ‘o lavrador quando ara e o debulhador quando debulha, devem fazê-lo na esperança de participar da colheita’. Se entre vocês semeamos coisas espirituais, seria demais colhermos de vocês coisas materiais? Se outros têm o direito de serem sustentados por vocês, não o temos nós ainda mais? […]. Vocês não sabem que aqueles que trabalham no templo, alimentam-se das coisas do templo [trigo, etc.], e que os que servem diante do altar participam do que é oferecido no altar [carne]? Da mesma forma, o Senhor ordenou àqueles que pregam o evangelho, que vivam do evangelho” (vs.7-14).
Nada mais claro. Entretanto, há os que deixam de lado toda essa argumentação e ensino e citam apenas os versos intercalados, a decisão particular do apóstolo Paulo de abrir mão desse seu direito, ao que parece, somente no caso da trabalhosa igreja de Corinto: “[…] nunca usamos desse direito. Ao contrário, suportamos tudo para não colocar obstáculos ao evangelho de Cristo […]. Não tenho usado de nenhum desses direitos. Não estou escrevendo na esperança de que vocês (de Corinto) façam isso por mim […]” (vs. 12b, 15). Em Corinto, esse apóstolo preferiu trabalhar com as próprias mãos, fabricando tendas em sociedade com Áquila e Priscila, e, assim provendo o próprio sustento (At 18.1-3). Sabemos que esse mesmo apóstolo, noutros períodos de seu ministério, recebeu ofertas generosas dos Filipenses e lhes escreveu agradecendo e dizendo-se “amplamente suprido” (Fp 4.14-18).
Em igrejas maiores e crescentes, há ministros outros além do pastor e funcionários. Alguns argumentam que, se o pastor recebe da igreja pelo trabalho que faz, os demais que prestam serviços à igreja devem receber também. Certo, em parte. Mas é preciso fazer algumas distinções. A igrejas que levam a sério a teologia, a sã doutrina, o ensino, a pregação e o pastoreio do rebanho têm pastores preparados, com curso superior e, em muitos casos, mestrado e doutorado. Eles dispensam praticamente todo o seu tempo à igreja. Não é o que se espera de coordenadores de ministérios, músicos e cantores. Salvo excessões, eles têm uma profissão e tiram da mesma o seu sustento. O que fazem na igreja instituída é trabalho voluntário. Isto não exclui a possibilidade e necessidade de igrejas maiores terem líderes de ministérios plenamente envolvidos e, portanto, assalariados (mesmo que se evite esse termo).
Que esse ensino bíblico sobre Mordomia, dízimos e ofertas fale profundamente aos seu coração, e o oriente e motive para a correta mordomia de tudo o que o Senhor lhe tem confiado. Somos todos servos de Deus, ou melhor, filhos de Deus. Ele quer a nossa cooperação. Que privilégio! Ponha o termômetro da dedicação, da cooperação, da entrega fiel dos dízimos, das ofertas de gratidão … E verifique a temperatura do seu coração, de sua fé, de seu amor a Deus, a Cristo, à igreja, aos que ainda não conhecem o Senhor Jesus, aos necessitados. Se a temperatura estiver baixa, se estiver com hipotermia espiritual, aqueça-se com o fogo do Espírito, com oração, estudo bíblico, frequência aos cultos, participação, dízimos e ofertas. Deus o(a) abençoe!
Éber Lenz César ([email protected])
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