A última palavra de Cristo na cruz foi uma citação modificada de uma oração muito conhecida das crianças no Velho Testamento. Esta era a primeira oração que as mães judias ensinavam aos seus filhos para que a dissessem à noite, antes de dormir. Davi a incluiu num dos seus salmos: “Em Ti, Senhor, me refugio […]. Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza […]. Nas tuas mãos entrego o meu espírito; tu me remiste, Senhor, Deus da verdade” (Sl 31.1,3,5).
Jesus, então, enfrentou a morte citando as Escrituras, uma simples oração de criança. Tornou-a ainda mais bela e significativa acrescentando-lhe a palavra “Pai”, e omitindo a expressão “Tu me remiste”. Sendo “santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores”, não tinha necessidade de redenção (Hb 7.26-27).
1. A singularidade da morte de Jesus.
É interessante observar que nenhum dos quatro evangelistas diz que Jesus morreu. Mateus afirma que “Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (27.50) Marcos diz que “Jesus, dando um grande brado, expirou” (15.37). Lucas, o único que registrou a penúltima e última palavra de Cristo na cruz, afirma que “Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mão entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou” (23.46). João escreveu que “Jesus […] inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (19.30).
Isto é muito importante porque indica que Jesus, de fato, não morreu como nós morremos. Nós somos obrigados a morrer; Jesus morreu voluntariamente. No seu caso, não houve “causa mortis”. Não se pode dizer que morreu de insolação, de desidratação, de inanição, ou de parada cardíaca. Antes dessas causas naturais chegarem ao seu fim, tirando-lhe a vida, Jesus, no momento preciso, por ele mesmo escolhido, “entregou o espírito”. “Então, os judeus, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz […] rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados. Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com ele tinham sido crucificados; chegando-se, porém, a Jesus, como vissem que já estava morto, não lhe quebraram as pernas” (Jo 19.31-33). “José de Arimateia […] dirigiu-se resolutamente a Pilatos e pediu o corpo de Jesus […]. Pilatos admirou-se de que ele já tivesse morrido” (Mc 15.42-44).
Jesus tinha dito: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas […]. Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la” (Jo 10.l7,l8). Disse e fez.
Sendo assim, agiganta-se ainda mais, ante nossos olhos, o amor do Calvário! O sacrifício de Cristo na cruz foi consciente, voluntário, totalmente amoroso.
2. Os que morrem em Cristo.
Não obstante isso, esta última palavra de Cristo na cruz aplica-se a todos os verdadeiros crentes, pois indica de que modo devem enfrentar a morte: com uma Escritura ou uma oração nos lábios, com serenidade e esperança, na certeza de que seu espírito passará, imediatamente, às mãos do Pai Celestial.
Assim o fez Estêvão, o primeiro mártir cristão. Antes de morrer, ele “fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à sua direita, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o filho do homem em pé à destra de Deus […]” E orou: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7.55,56,59).
Assim o fez Beethovem, crente em Jesus Cristo e surdo nos últimos anos de sua vida. Antes de morrer, ele disse: “No céu, eu poderei escutar”.
Assim o fez John Bunyan, autor de “O Peregrino”, o segundo livro mais lido no mundo. Olhando os que rodeavam o seu leito de morte, ele disse: “Não chorem por mim, pois breve estaremos juntos no céu”.
Assim o fez o grande evangelista Dwight Moody, no século XIX: Chegada a sua hora, ele disse: “O céu está se abrindo. Deus me chama!”
Assim fez o jovem Daniel de Oliveira Gueiros, membro da Igreja Presbiteriana. das Graças, em Recife, igreja que eu pastoreava na época. Antes de dar o suspiro final, ele ergueu os braços para o céu, punhos cerrados, e disse: “Vitória de Jesus! Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.
Felizes os que podem morrer assim!
Éber M. Lenz César
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