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Socorro, sou pastor! 

Em 60 anos de ministério pastoral ininterrupto, servi ao Senhor em várias cidades, igrejas e Presbitérios, incluindo o Presbitério de Pretória, na África do Sul.  Sou muito grato ao Senhor porque, em sua infinita graça, concedeu-me esta bênção. Sou grato também aos Presbitérios e igrejas por seu acolhimento. O Senhor nos permitiu colher muitos frutos… 

Entretanto, a despeito dessas bênçãos, faltou, nos Concílios, algo que considero muito importante: tempo para convivência mais fraternal e amiga, menos clerical e menos institucional. Quem sabe, crescendo no conhecimento mútuo e na confiança, poderíamos ter compartilhado melhor nossas lutas e vitórias pessoais, familiares e pastorais… Que eu me lembre, em nenhum dos Presbitérios tivemos encontros informais, promovidos pelo Concílio, somente para reflexão, oração, compartilhamento e confraternização. Na África do Sul, à parte do Presbitério, participei de reuniões informais com os colegas missionários brasileiros onde somente conversávamos, orávamos e comíamos juntos. Em Uberlândia e em Recife, também à parte dos Presbitérios, compensamos esta falta formando grupos de oração e compartilhamento só de pastores.

Uns aos outros.

Provavelmente, todos nós, pastores, já pregamos nas igrejas sobre os textos de “mutualidade”, com a expressão “uns aos outros”, frequentes no Novo Testamento. Esses textos recomendam compartilhamentos e cuidados mútuos nas igrejas. Os líderes também necessitam dessas práticas, talvez até mais!

Em quase todas as igrejas que pastoreei, ministrei uma série de dez mensagens sobre estes textos (disponíveis aqui). Neste artigo, vou citar e comentar brevemente somente três desses textos, pensando mais nos pastores: 

1. “Habite ricamente em vocês a Palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria” (Cl 3.16).

Que falta fazem na vida do pastor essa instrução e esses conselhos mútuos, amigos, humildes, de colega para colega, de homem para homem! 

Uma vez, numa reunião de Presbitério, dois ou três colegas informaram terem-se divorciado. Sem nenhum julgamento, e muito menos condenação, pensei e falei, em plenário: Teriam estes colegas compartilhado suas dificuldades conjugais e familiares, suas lutas, suas tentações e seus sofrimentos com algum ou alguns colegas do Concílio? Teriam recebido socorro na forma de aconselhamento e oração? O desastre poderia ter sido evitado?

Numa outra reunião, ouvi também, estarrecido, denúncias muito sérias contra um pastor, situações escandalosas, que estavam destroçando uma igreja… Mas o mal já estava feito!

Há poucos dias (01/2026) fomos surpreendidos e entristecidos com a confissão pública de um famoso pastor e escritor norte americano que estava em adultério há oito anos com uma mulher casada… O que faltou?

2. “Confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros […]” (Tg 5.16).

De todos os textos “uns aos outros”, talvez este seja o mais difícil de praticar. Admitir faltas, confessar pecados (mesmo na intimidade de uma amizade sincera) não é fácil, mas necessário. Os conselhos e orações de um ou mais irmãos serão usados por Deus no processo de cura e restauração. 

3.“Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo […]” (Gl 6.2-3).

Eugene Peterson parafraseou este versículo como segue: “Compartilhem aquilo que pesa a vocês e cumpram, desse modo, a lei de Cristo. Se pensam que são bons demais para agir assim, estão muito enganados” (Bíblia A Mensagem). A “lei de Cristo”, evidentemente, é a lei do amor!

Quando falta amor e compartilhamento…

Numa das cidades onde pastoreei, o pastor de uma igreja  pregou no domingo de manhã e de noite. Na segunda-feira cedo, depois que a esposa saiu para o trabalho, ele levou a filha menor à escola, voltou para casa, entrou no banheiro e deu um tiro na cabeça!!! Planejado? Por que uma arma em casa? Não é preciso comentar a tristeza, a consternação e a indagação da multidão de parentes, irmãos e amigos que se reuniu no templo para o funeral… Eu nunca me esqueci. E, como muitos outros, me pergunto até hoje: Depressão? Bournout? Tentação? Pecado? Culpa? O que não foi compartilhado? O que ninguém percebeu?

Dias mais tarde, um dos meus filhos pastores, enviou-me uma nota, extraída de uma revista cristã:  “Nos últimos 30 dias, três suicídios de pastores conhecidos chocou a igreja dos Estados Unidos […]”. Sobre um deles, o que se matou com um tiro na cabeça, o articulista acrescenta: “Sua esposa o encontrou caído na entrada da garagem de sua casa num domingo. Ele já havia pregado naquela manhã e teria de pregar novamente naquele dia.”

Esgotamento espiritual.

No Natal de 1992, minha esposa me deu de presente um livro intitulado “Esgotamento espiritual” (SMITH, M, Editora Vida, 1991). Eu o li de enfiada, com grande interesse e proveito. Mas fiquei me perguntando: Por que será que minha esposa me deu este livro? O que ela pensa que está acontecendo comigo? Bom, ela me acompanhou de perto e participou de todos os momentos felizes ou de grande turbulência que vivenciamos.” Por isso mesmo, sugeri que ela também lesse o livro.

E quanto às esposas dos pastores?

A propósito, tenho observado que muitos pastores e líderes evitam envolver suas esposas nos ministérios e principalmente nos problemas das igrejas. Não lhes tiro a razão, até certo ponto… Todavia, não considero bíblico e correto que uma esposa de pastor pouco frequente a igreja ou não participe de qualquer dos seus ministérios. Deve fazê-lo, como todo cristão! Tem talentos e dons que devem ser usados (Hb 10.25). Também não considero bíblico e correto que o pastor não compartilhe com sua esposa as dificuldades que enfrenta no ministério, ainda que, em casos excepcionais, decida resguardá-la do desgaste emocional. De modo geral, pode ser salutar e importante que orem juntos a respeito. E bem pode ser que a esposa some percepções e conselhos sábios. Obviamente, estou falando de esposas cristãs, espirituais, emocionalmente resolvidas, prudentes, sábias, companheiras idôneas!

Nesse contexto, tento imaginar como era a relação conjugal e ministerial de Áquila e Priscila, que, juntos hospedaram e acompanharam o Apóstolo Paulo (Atos 18.1-18). Os dois, depois de ouvirem Apolo pregar, “convidaram-no para ir à sua casa e lhe explicaram com mais exatidão o caminho de Deus” (Atos 18.24-26). Posteriormente, escrevendo aos cristãos romanos, o mesmo apóstolo incluiu uma palavra especial de saudação e gratidão a esse casal amigo, que até hospedava um Pequeno Grupo da igreja em sua casa (Rm 16.3-5).

Já ouvi pastores defendendo a ideia machista de que lugar da esposa é em casa, cuidando da família e do fogão! Será que pensam assim quando se trata de emprego ou profissões remuneradas, ditas “seculares”? A propósito, mesmo tendo trabalhado fora por vários períodos e me ajudando incansavelmente no ministério, minha querida esposa e cooperadora cuida muito bem da casa e faz uma comida mineira que atrai de volta, com frequência, nossos filhos, netas e os agregados… Só não sei como ela consegue! Talvez porque sou eu quem lava a louça e as panelas e, às vezes, ajuda na faxina!

Pr. Éber Lenz César

Se desejar, compartilhe com pastores e líderes, seus conhecidos.

Esta mensagem é um resumo e adaptação do cp 38 do meu livro VIDA DE PASTOR, MEMÓRIAS DE UMA JORNADA, 2014. 

CONTATO

Pastor, se desejar, me escreva sobre sua experiência e opinião a respeito deste tema.

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