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Curso: Fundamentos da Fé Cristã. III. Justificação pela Fé

Essa importante doutrina é ensinada principalmente pelo apóstolo Paulo no capítulo 3 de sua carta aos Romanos. Nós a entenderemos melhor se, primeiro, examinarmos seu contexto.

A certa altura de seu ministério, o apóstolo Paulo planejou visitar Roma e a igreja que ali se reunia. Era uma igreja constituída principalmente de judeus convertidos a Cristo. Aqueles judeus não tinham as melhoras informações sobre o apóstolo Paulo. Pensavam que ele era contra certas tradições judaicas e contra alguns preceitos da lei mosaica. Paulo sabia que eles o haveriam de sabatinar. Então, antecipou-se escrevendo-lhes esta carta onde expõe seus pensamentos, melhor dizendo, explica o evangelho que ele pregava. 

O apóstolo refere muitas passagens do Velho Testamento, faz muitas referências a Israel, explica qual poderá ser o futuro dessa nação, fala de circuncisão e outros temas de interesse de seus leitores judeus.

Entretanto, a carta de Paulo aos Romanos não é apenas uma carta de um pregador a um grupo específico de crentes. Como todos os outros livros da Bíblia, essa carta foi inspirada por Deus e é parte da Palavra de Deus para a humanidade em todos os tempos.

O reformador Martinho Lutero chamou a carta de Paulo aos Romanos de “a parte fundamental do Novo Testamento e verdadeiramente o mais puro evangelho”. Ele dizia que todo cristão deveria decorar essa carta e tê-la como “pão diário para a alma”. 

Nos dois primeiros capítulos e na primeira parte do terceiro capítulo, Paulo corajosamente afirma que judeus e gentios são todos igualmente pecadores e estão sob condenação. 

“Que se conclui? Temos nós [judeus] qualquer vantagem [em relação aos gentios]? “Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gentios estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer […]” (Rm 3.9ss; 6.23). 

Essa é a má notícia. Um diagnóstico terrível, aparentemente sem solução. Na verdade, é um veredito de morte!

Mas o apóstolo também tem um boa notícia, uma noticia maravilhosa. Ele vai dizer e explicar que o pecador, seja ele judeu ou gentio, pode ser JUSTIFICADO PELA FÉ, isto é, crendo em Jesus Cristo. 

Então, vamos ler Rm 3.21-31. Esta passagem é extremamente importante e de grande valor prático. Note que a palavra “fé” ocorre 8 vezes; o verbo “crer” uma vez; e a expressão “em Jesus” 3 vezes.

O já citado monge agostiniano, Martinho Lutero, converteu-se a Cristo estudando a carta de Paulo aos Romanos e refletindo sobre essa importante doutrina, a JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ. Na margem de sua Bíblia, em Rm 3.23, onde Paulo explica essa doutrina, Lutero anotou: “Essa é a questão principal, o âmago da epistola e da Bíblia inteira.”

Lurray Harris, renomado professor e teólogo americano, disse em uma devocional no Seminário onde ensinava: 

“Onde encontramos o centro do cristianismo histórico em termos de teologia e significado? Quando somamos todas as doutrinas, manifestos e declarações de credo, o que temos? Pegue a Bíblia, vá para o Novo Testamento, abra Romanos, procure o capitulo 3, localize os versículos 21-23 e concentre-se no verso 24. Lá está, o âmago do ensinamento bíblico sobre a fé cristã.”  (Citado por John Nyquist, em capítulo sobre o Paradoxo do Evangelho, parte do livro A Verdade, organizado por D.A. Carson, Ed. Vida Nova, 2015).

Então vamos lá. Vamos examinar essa passagem preciosa, e entender melhor o que é a JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ.

  1. A doutrina da JUSTIFICAÇÃO é parte da doutrina mais ampla da salvação (Soteriologia), assim como a regeneração, a redenção e a santificação. 
  2. A justificação do pecador não significa que Deus deixa passar impunes nossos pecados (Rm 6.23). Alguém tem que pagar. Cristo o fez na cruz!
  3. Deus pôs nossos pecados sobre Cristo; ele morreu por nossos pecados (Is 53.6; I Co 15.3; II Co 5.21). Se cremos em Cristo, Deus põe sobre nós ou nos credita a justiça de Cristo. O termo geralmente usado nos escritos teológicos é imputação: Deus nos  imputa a justiça de Cristo.. Como Juiz supremo, ele “bate o martelo” e nos declara justos. Na verdade, trata-se de uma dupla imputação: Nossos pecados são imputados a Cristo; e sua justiça nos é imputada.
  4. Jesus não se tornou pecador, ele próprio, quando Deus lhe imputou nossos pecados; nós não nos tornamos justos (no sentido ético) quando Deus nos imputa a justiça de Cristo (Rm 3.10). Entretanto, uma vez perdoados e justificados aos olhos de Deus, somos progressivamente SANTIFICADOS. E este será o tema da próxima aula.

É importante frisar o seguinte: Em Rm 3, Paulo está falando da “justiça de Deus” e, por implicação, da “justiça de Cristo” (3.21,25). E aqui está o mistério, uma evidência maravilhosa da graça de Deus: Se o pecador se arrepende de seus pecados e crê em Jesus Cristo, ele é perdoado, reconciliado com Deus e, mais que isso, ele é declarado justo aos olhos Deus, mesmo sem o ser na prática, pois ele ainda peca. É importante entender que a justiça não é sua, do pecador; é de Cristo, o Justo, o único que nunca pecou. Por razão da relação ou união do pecador com Cristo, Deus lhe atribui a justiça de Cristo. E isso Deus faz sem levar em conta que o pecador, mesmo regenerado e salvo, ainda é pecador, ainda transgride a lei. Paulo explica: 

  1. “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela lei e pelos profetas  […]”(v.21). A lei e os profetas, testemunharam, no Velho Testamento, o quanto Deus é justo. Ele nunca atenuou suas exigências.
  2. “Justiça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que creem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”(vs.22-23). A justiça é atribuída ao pecador mediante a fé, não mediante a obediência à lei; e é para todos, todos os que creem em Jesus, judeus e gentios, sem distinção. Diríamos hoje: para ricos e pobres, cultos e incultos, brandos e pretos, ocidentais e orientais, deste ou daquele clube, deste ou daquele partido político, desde que crentes no Senhor Jesus!
  3. “Todos pecaram, sendo justificados gratuitamente […]” (v. 24a). Mais à frente, o apóstolo acrescenta: “O homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (v. 28). A justiça de que Paulo está falando é gratuita; não tem nada a ver com observância da lei ou boas obras; ninguém a recebe por méritos próprios. Daí o que Paulo diz em seguida… 
  4. “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé” (v. 27).

O que Cristo fez?

Em Rm 3.24-25, Paulo usa duas palavras bem teológicas para descrever o que Cristo fez por nós na cruz…

  1. Redenção. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (vs.24-25). A versão NVT parece mais clara: “Todos pecaram e não alcançam o padrão da glória de Deus, mas ele, em sua graça, nos declara justos por meio de Cristo Jesus, que nos resgatou do castigo por nossos pecados.” 

Redenção”  é o substantivo de “redimir”, pagar por um escravo (que passa a ser do comprador) ou pela libertação desse escravo ou refém. O pecador não redimido é escravo do pecado, refém de Satanás. Jesus o comprou para si (e para Deus) e o libertou do pecado. (I Co 6.20; Jo 8.34,36).

  1. Propiciação. “[…] mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs no seu sangue, como PROPICIAÇÃO mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo se justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (3.25-26, RA). A NVT traduz: “Deus apresentou Jesus comosacrifício pelo pecado, com o sangue que ele derramou, mostrando assim sua justiça em favor dos que creem. No passado ele se conteve e não castigou os pecados antes cometidos, pois planejava revelar sua justiça no tempo presente. Com isto, Deus se mostrou justo, condenando o pecado, e justificador, declarando justo o pecador que crê em Jesus.  

Propiciação é  o ato de propiciar, tornar propício, favorável. No  mundo pagão, os adoradores de deuses faziam ofertas aos mesmos para torná-los propícios ou favoráveis a eles, abençoando suas plantações, etc. Na Bíblia, os sacerdotes, orientados por Deus, ofereciam sacrifícios animais em expiação pelos pecados do povo. Deus lhes estava ensinando que pecado é coisa séria e exige punição. De fato, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Em sua graça, Deus aceitava que animais “pagassem” pelos pecados do povo. E não só isso. Aqueles sacrifícios antecipavam, simbolicamente e didaticamente o sacrifício futuro de Jesus, o Cordeiro de Deus. na cruz (Rm 5.8; I Co 15.3; I Pe 1.18-19). Vale lembrar que a tampa da arca da aliança, sobre a qual o sumo sacerdote derramava o sangue do sacrifício era chamada de “propiciatório”. 

Quando Paulo diz que a justificação é “mediante a fé em Cristo Jesus”, ele logo esclarece que não se trata apenas de acreditar que Jesus existiu e fez isso ou aquilo, mas entender e crer que ele morreu por nossos pecados, pagou o preço, sofreu o castigo que nós merecíamos, e assim, satisfez a justiça de Deus e o tornou propício a nós. Tanto que ele, não só nos perdoou como também nos justificou e nos adotou como filhos, co-herdeiros com Cristo (Jo 1.12; Rm 8.17; Gl 4.4-6; Ef 1.5).

Um esclarecimento final.

Espero que tenha ficado absolutamente claro que a justificação não nos fez justos, moral e espiritualmente perfeitos ou santos. Porém, é assim que Deus, graciosamente nos vê, e isto por causa de nossa e fé em Cristo. Todavia, somos “chamados para ser santos” (I Co 1.1-2). Repetidas vezes lemos na Bíblia este mandamento: “Sede santos porque eu sou santo” ( I Pe 1.15-16). Nós somos justificados de uma vez por todas no momento da nossa salvação. Mas somos santificados progressivamente, dia após dia… Mas este será o tema da próxima aula. Por agora, sejamos sincera e profundamente agradecidos a Deus e a Cristo por nos ter justificado, por nos ter adotado como filhos. Sejamos filhos agradecidos e obedientes!

Concluo com estes dois versículos: 

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus […]. Porquanto o que fora impossível à lei […]  isso Deus fez enviando o seu próprio Filho […]” (Rm 8.1-3).

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? 

É Deus quem os justifica”

Rm 8.33

Éber Lenz César

Curso: Fundamentos Cristãos,

Igreja Sal da Terra, Brasília, Junho 2025.

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