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Igreja é, sim, uma instituição. Mas…

Esta mensagem é parte da série: Resgatando termos e conceitos)

Um número crescente de cristãos evangélicos (e não evangélicos) está deixando a igreja, se assim podemos dizer (1). São os chamados desigrejados, milhões no Brasil e no mundo. São vários os motivos alegados: decepção com promessas não cumpridas, desapontamentos relacionais, pregações e ensinos estranhos à sã doutrina, maus exemplos, inclusive de pastores e outros líderes… 

Num artigo sobre Os Desigrejados, o conhecido pastor e teólogo Augustus Nicodemus explica: 

“Muitos destes estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma. […]. Passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja {…].” 

Na sequência, Augustus lista seis alegações dos desigrejados. Cito apenas estas duas:

  1. Cristo não deixou qualquer forma de igreja organizada e institucional.
  2. Já nos primeiros séculos, os cristãos se afastaram dos ensinos de Jesus, organizando-se como uma instituição, criando estruturas, inventando ofícios […] elaborando hierarquias para proteger e defender a própria instituição, e de tal maneira se organizaram que acabaram deixando Deus de fora. 

Augustus concorda em parte, mas questiona:

“Pergunto se ainda assim está correto abandonarmos a igreja institucional e seguirmos um cristianismo em vôo solo. Pergunto ainda se os desigrejados não estão jogando fora o bebê junto com a água suja da banheira. Ao final, parece que a revolta deles não é somente contra a institucionalização da igreja, mas contra qualquer coisa que imponha limites ou restrições à sua maneira de pensar e de agir […]. Esse tipo de atitude anti-instituição, anti-disciplina, anti-regras, anti-autoridade, anti-limites de todo tipo se encaixa perfeitamente na mentalidade secular e revolucionária de nosso tempo […].”  (2)

Organização e instituição

Partindo daí, quero defender biblicamente a necessidade de organização e instituição da igreja. Podem não ser exatamente a mesma coisa, mas caminham juntas. 

Um organização é um grupo de pessoas com um propósito comum e uma estrutura; uma instituição é uma organização mais bem estabelecida e duradoura, com normas e valores que servem a um propósito social maior. Toda instituição é uma organização, mas nem toda organização é uma instituição. Biblicamente falando, uma igreja (assembleia de crentes) deve organizar-se e instituir-se como corpo de Cristo, visando o bem interno e o serviço externo.

Um exemplo concreto

Um igreja já estabelecida, com visão missionária e responsabilidade, chama um pastor para plantar uma igreja filha num determinado bairro ou cidade (Já fiz isso várias vezes!). Alguns irmãos da igreja mãe, enviados ou espontaneamente, dispõem-se a cooperar nesse desafio missionário. O grupo cresce com novos convertidos e, quem sabe, com alguns membros de outras igrejas e alguns desigrejados. Não demora muito, e essa nova comunidade de crentes, que já tem um pastor, entende que precisa se organizar melhor: outros líderes e coordenadores, ministérios diferentes, espaço maior para as reuniões (não precisa ser um templo), uma estante para apoiar a Bíblia e o computador do pregador (Ne 8.4), um serviço de som, dependências próprias para o Ministério Infantil e para guardar equipamentos, uma cozinha, etc. Como tudo custa dinheiro, e todos devem contribuir com dízimos e ofertas (II Co 9.7), essa igreja filha logo precisará de um tesoureiro e de uma conta bancária. Dadas as contingências atuais e as exigências legais, precisará também de Estatutos e CNPJ. Afinal, precisa “dar a César o que é de César” (Mt 22.21).

Aí está. Uma igreja em processo de organização que, no fim, precisa se institucionalizar! Qual é o problema? É bíblico? Certamente. O que não é bíblico é a desorganização e eventuais complicações e mau testemunho por não cumprir exigências legais. Uma igreja organizada e instituída pode melhor servir à cidade cumprindo sua missão evangelizadora e social. Entretanto, é preciso cuidado: Organização em excesso e atenção demasiada à instituição, prejudicarão seriamente a espiritualidade, os relacionamentos e a missão. 

Citações preciosas.

A Editora Mundo Cristão publicou um livro intitulado: O Melhor de A.W.Tozer, piedoso pastor e escritor norte americano, falecido em 1963. No capítulo “Organização: Necessária e Perigosa”, Tozer escreveu: 

“O Novo Testamento fala muito de organização. As epístolas pastorais de Paulo e suas cartas aos cristãos de Corinto revelam que o grande apóstolo era um organizador […]. Os cristãos têm cometido erros em várias direções por não compreenderem o propósito da organização e os perigos resultantes caso ela não seja controlada. Alguns não querem qualquer tipo de organização e as consequências são confusão e desordem […]. Outros substituem a vida da igreja pela organização e mesmo tendo o nome de vivos estão na verdade mortos. Outros ainda se apaixonam de tal forma pelas regras e regulamentos que os multiplicam além de todo bom senso, e logo a espontaneidade se apaga dentro da igreja. A vida desaparece […]. Os líderes sábios devem ficar vigilantes com relação a ambos os extremos […]”  (3)

O pastor e teólogo Kevin DeYoung (4) comenta a recomendação do apóstolo Paulo aos desorganizados Coríntios: “Cuidem para que tudo seja feito com decência e ordem” (I Co 14.40). Ele escreveu: 

“O apóstolo Paulo sabia melhor do que ninguém que o oposto da ordem na igreja não é a espontaneidade de fluxo livre; é o caos auto-exaltador. Deus nunca favorece a confusão em detrimento da paz, pois “não é Deus de desordem, mas de paz” (I Co 14:33). Como David Garland colocou de forma memorável: ‘O Espírito do ardor também é o Espírito da ordem.’

“A realidade é que toda igreja vai adorar de alguma forma, orar de alguma maneira, ser liderada de alguma maneira, ser estruturada de alguma maneira e fazer o batismo e a Ceia do Senhor de alguma maneira. Toda igreja está vivendo alguma forma de teologia, mesmo que essa teologia seja baseada no pragmatismo em vez de princípios bíblicos.

“Por que não gostaríamos que nossa vida juntos na igreja fosse moldada pelas melhores reflexões exegéticas, teológicas e históricas? {…]. Por que não gostaríamos que todas as coisas em nossa vida juntos como uma igreja fossem feitas decentemente e em ordem? […]. Esse é o caminho de Deus, e – com todo o zelo e paixão – faríamos bem em não esquecê-lo?” (5)

Grant Munroe, gerente de serviços públicos da Biblioteca do Condado de Essex, escreveu:

Ser anti-instituição significa muitas vezes ser contra ter alguém no comando, na pressuposição de que toda ‘liderança’ e ‘administração’ são inerentemente problemáticas”  (6)

Organização na igreja primitiva

Não se pode dizer que a igreja do primeiro século era uma instituição no sentido moderno do termo (prédios, estatutos, personalidade jurídica e certa hierarquia). Isto aconteceria mais tarde, progressivamente, a partir do  século II.  Entretanto, ainda no primeiro século, a igreja primou pela organização: 

  • Batizava os novos convertidos (At 2.41a). 
  • Contabilizava seus membros, pelo menos enquanto foi possível, pois a igreja cresceu muito rapidamente (At 2.41b; 4.4, 32; 6.7; 9.31).
  • Os convertidos se reuniam com frequência para estudo bíblico, oração, celebração da Santa Ceia e comunhão ou “mesa”, como dizemos hoje (At 2. 44-47).
  • Os apóstolos (e outros como Timóteo e Tito) exerciam uma forte liderança, pregando, orando, orientando, e realizando milagres em nome de Jesus (At 2.37, 4-8; 4.6-8; 9.32-34; 17.4; etc.). Pedro e Paulo testemunharam terem sido escolhidos (vocacionados) por Deus para os respectivos ministérios, Pedro para ministrar principalmente aos judeus, Paulo aos gentios (At 15.7; At 9.11,15; 22.14; Gl 2.7). Pedro se identificou com os presbíteros e recomendou-lhes que também pastoreassem o rebanho, mas “não como dominadores” (I Pe 5.1-4).
  • No começo, os apóstolos também administravam a ajuda aos necessitados. Quando esse trabalho ficou pesado, tomando-lhes o tempo da pregação e da oração, eles convocaram uma assembléia que elegeu os primeiros diáconos, “homens de boa reputação e cheios do Espírito Santo e de sabedoria”. Os apóstolos os ordenaram, orando por eles e impondo-lhes as mãos (At 6.1-6). 
  • Paulo plantou igrejas em muitas cidades. Depois voltou (com Barnabé) a algumas delas fortalecendo a fé dos convertidos e promovendo a eleição de presbíteros (At 14.22). Quando ele próprio não pôde fazê-lo, pediu a Tito, um de seus auxiliares, que “completasse o trabalho e nomeasse presbíteros em cada cidade”, homens bem casados, de bom testemunho, humildes, apegados à Palavra, etc. (Tt 1.5-9). O mesmo apóstolo escreveu a Timóteo sobre essas e outras qualificações necessárias para alguém ser nomeado bispo (supervisor), ou diácono (I Tm 3.1-13). O Novo Testamento não faz distinção entre “bispo” e “presbítero”
  • Havia em Jerusalém uma espécie de Presbitério ou Concílio. Pedro precisou justificar-se perante o mesmo por ter entrado na casa de Cornélio, um centurião Romano (At 11). O mesmo Concílio precisou resolver uma controvérsia sobre circuncidar ou não os gentios convertidos (At 15).
  • Com raras excessões, os cristãos contribuíam financeiramente para socorrer os necessitados e para a obra missionária (At 2.44-45; 4.32, 36-37; Rm 15.26; II Co 8.1-5; Fp 4.10-18). 
  • Não havia hierarquia, mas funções, ministérios e liderança específicos, conforme o Espírito os capacitava com talentos e “dons espirituais” (I Co 12). 

Mais poderia ser dito, porém, isto é suficiente para mostrar que a igreja, nos seus primórdios, não era uma comunidade desorganizada, sem rumo certo. Muito ao contrário, cheia do Espírito, de amor, e na liberdade de Cristo, tinha “ordem e decência”, disciplina e responsabilidade. Sigamos seu exemplo!

Características de uma igreja instituída

Para rematar, vou listar algumas características de uma igreja organizada e instituída.

  • Líderes e ministérios específicos, como já foi demonstrado.
  • Normas de conduta: valores morais e espirituais ensinados na Palavra de Deus (sem sequer se aproximar do legalismo hipócrita dos escribas e fariseus, os líderes religiosos que deram tanto trabalho a Jesus). Além disso, as igrejas têm regras administrativas. Por exemplo: a Igreja Presbiteriana do Brasil, na qual fui pastor por 59 anos, tem seu Manual Presbiteriano, que inclui a Constituição da Igreja, o Código de Disciplina e os Princípios de Liturgia. O Ministério Sal da Terra, de origem Presbiteriana, onde presentemente eu pastoreio, tem a sua Carta de Princípios e Valores.  
  • Estrutura e Liderança. As igrejas instituídas possuem uma estrutura organizada, com ministérios e funções específicas, que, pelo menos idealmente, devem levar em conta o dom ou os dons concedidos pelo Espírito a cada um (Rm 12.4-8; I Co 12). Certos dons são concedidos àqueles que Deus escolhe para uma liderança principal: “Ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e mestres. Eles são responsáveis para preparar o povo santo para realizar sua obra e edificar o corpo de Cristo” (Ef 4.11-12). 
  • Personalidade Jurídica. As igrejas, como outras organizações sociais, têm personalidade jurídica, o que lhes permite ter direitos e deveres legais. 
  • Consciência de missão. A missão principal da igreja é pregar o evangelho, evangelizar (Mc 16.15-16; Mt 28.19-20; Lc 9.59-60). Por todo o livro de Atos, percebemos uma forte ênfase na evangelização, praticada não somente pelos apóstolos, mas por todos os cristãos (At 8.1,4). Biblicamente, esta é a missão precípua da igreja e seu melhor serviço à cidade e ao mundo. Ação social, ajuda humanitária e coisas tais acompanham como expressões do amor ao próximo. Daí o item seguinte. 
  • Funções Sociais: As igrejas também desempenham um importante papel na promoção da justiça social, na defesa da dignidade humana e na formação da cultura. São a “luz do mundo” e “sal da terra” (Mt 5.13-16).

    Conclusão

Então, que não haja negligência na organização e nem rejeição à institucionalização da igreja. Está tudo bem, desde que não se dê mais importância a isto que à autenticidade da fé, ao zelo doutrinário, à pregação da Palavra, à evangelização, aos relacionamentos, ao bom testemunho e ao cumprimento da missão.

Notas:

(1) Igreja, no sentido bíblico, são pessoas, pessoas reunidas ou dispersas. Os que deixam de participar das reuniões, continuam sendo igreja (a menos que não sejam realmente convertidos a Cristo. I Jo 2.19.

(2) NICODEMUS, Augustus. Os desigrejados. Disponível em https://www.facebook.com/story.phpstory_fbid=2500830916635971&id=100044325944756&mibextid=wwXIfr&rdid=5BWvcHskl5BOmR3a#. 25/09/2025

(3) TOZER, A.W. O Melhor de A.W Tozer. Seleções prediletas dos livros de um profeta de hoje. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, 1984. Pgs. 57-60.

(4) Kevin DeYoung é professor no Seminário Teológico Reformado em Charlotte, membro do Conselho da Coalizão do Evangelho (TGC-USA), Sênior Pastor na Igreja Christ Covenant, Escreveu vários livros, entre eles o Daily Doctrine, de onde vem esta citação.

(5) DeYOUNG, Kevin. Daily Doctrine: A One-Year Guide to Systematic Theology. Ed. Crossway, Wheaton, IllinoisUSA, 2024.

(6) Citado por Gordon T. Smith em Quer Mudar o Mundo? Invista em Instituições. Ele é presidente da Universidade de Ambrose, em Calgary, Canadá. Disponível em  https://coalizaopeloevangelho.org/article/quer-mudar-o-mundo-invista-em-instituicoes/ (23/9/2025).

Pr Éber Lenz César

Veja as outras mensagens desta série:

Introdução

I. Religião não salva, mas…

II. “Evangélico” é rótulo desgastado, mas…

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