INTRODUÇÃO
Na estudo anterior, procuramos entender e aplicar o ensino bíblico sobre a preciosa doutrina da JUSTIFICAÇÃO. Nesta, vamos refletir sobre a SANTIFICAÇÃO. Como disse Thomas Brooks (pregador e autor puritano inglês, séc. XVII): ”Justificação e santificação são companheiras inseparáveis; elas precisam ser diferenciadas, porém jamais podem ser separadas.” A SANTIFICAÇÃO é o resultado inevitável da REGENERAÇÃO e da JUSTIFICAÇÃO!
Outras duas citações introdutórias:
• “A SANTIFICAÇÃO é um processo na vida do cristão, onde Deus, por meio do Espírito Santo, vai nos tornando menos parecidos com Adão e mas semelhantes a Cristo” (Marcelo Rissma).
• “A conversão tira o Cristão do mundo; Cristão.”a santificação tira o mundo do cristão” (John Wesley).
Santidade e santificação na Bíblia.
Na Bíblia, há uma quantidade enorme de passagens sobre “SANTIDADE” e “SANTIFICAÇÃO”. Estas passagens ensinam que Deus é Santo e, por isso mesmo, seus filhos devem ser santos.
No Velho Testamento, Deus disse a Israel, seu povo: “Eu sou o Senhor vosso Deus: portanto, vós vos consagrareis, e sereis santos, porque eu sou santo.” (Lv 11.44).
Junto ao Jordão, antes da conquista da Palestina, Josué disse ao povo: “Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós” (Js 3.5).
Os salmistas exortavam os crentes do Velho Testamento a adorarem o Senhor “na beleza da santidade” (Sl 29.2). E diziam: “Ele exalta […] o louvor dos seus santos” (Sl 148.14). Os mesmos salmistas oravam, dizendo: “À tua casa convém a santidade, Senhor, para todo o sempre” (Sl 93.5).
O Novo Testamento chama os crentes de “santos” (At 9.13; Rm 12.13). Os apóstolos endereçaram suas epístolas “aos santos” (II Co 1.1; Ef 1.1); “aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos” (I Co 1.2); “aos eleitos de Deus, santos e amados” (Cl 3.12); “aos eleitos […] em santificação do Espírito” (I Pe 1.2). A igreja é “[…] nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (I Pe 2.9).
A palavra santo quer dizer “separado”. Neste sentido, os crentes individualmente, e a igreja como um todo, já são santos, posto que já foram separados ou postos à parte para Deus, para serem sua “propriedade exclusiva”. Noutro sentido, porém, tanto os crentes em particular como a igreja estão sendo santificados, isto é, aperfeiçoados.
A “santidade” de que fala a Bíblia exige uma completa mudança de comportamento. Os “santos” precisam aprender a viver santamente. Não o conseguem do dia para a noite, mas progressivamente, e com a indispensável ajuda do Espírito Santo. O processo é chamado de “santificação”.
Paulo escreveu aos “santos” de Tessalônica: “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis, progredindo cada vez mais […]. Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (I Ts 4.1-3).
E Pedro escreveu: “Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância; pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (I Pe 1.14-16).
O autor da epístola aos Hebreus também escreveu: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.” Ou como lemos na NVT: “Esforcem-se para viver em paz com todos e procurem ter uma vida santa, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). A própria NVT explica: “Os que vivem uma vida santa têm a esperança confiante de ver o Senhor”.
Esta passagem indica que a SANTIFICAÇÃO é tão importante quanto a REGENERAÇÃO e a JUSTIFICAÇÃO. Sem qualquer dessas operações do Espírito Santo, não veremos o Senhor! Elas estão juntas na Soteriologia, isto é, na doutrina da Salvação.
Postas lado a lado, Justificação e Santificação podem ser distinguidas como segue:
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JUSTIFICAÇÃO |
SANTIFICAÇÃO |
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Posição legal, externa |
Condição interna |
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Instantânea e definitiva. Pela fé, sem obras |
Contínua e crescente. Pelas obras, com fé |
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Perfeita e completa desde a conversão |
Imperfeita até a volta de Cristo |
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A mesma em todos os que creem |
Maior ou menor nuns e noutros |
A natureza da Santificação.
John Ryle, no seu livro SANTIDADE explica, com detalhes, a natureza da verdadeira santidade e santificação. Aqui está um resumo com adaptações:
1. Ao contrário da JUSTIFICAÇÃO, a SANTIFICAÇÃO exige esforço da nossa parte. Na verdade é uma luta ou “batalha espiritual”.
J. Ryle escreveu: “Na justificação, a fé ‘não trabalha, mas crê’ (Rm 4.5). Na santificação, a fé ‘atua pelo amor’ (Gl 5.6). Na justificação, a palavra a ser dirigida ao homem é “crê, simplesmente crê”; na santificação, a mensagem deve ser ‘vigia, ora, luta’.”
O mesmo apóstolo que escreveu aos Gálatas: “vivo pela fé” (2.20), escreveu aos Coríntios: “Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim, corro também eu […] luto […] esmurro o meu corpo, e o reduzo à escravidão […]” (I Co 9.24-27. Ver Ef 6.11-12). O autor da carta aos Hebreus escreveu: “Esforcemo-nos […]” (4.11). Todas estas passagens indicam que a santidade não é “mediante a fé” somente, mas também mediante o esforço pessoal.
2. A santificação é uma confirmação inequívoca da eleição divina. Não sabemos previamente quem é eleito e quem não é. Entretanto, os eleitos que já foram regenerados e justificados podem ser identificados por suas vidas santas. O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Tessalônica: “Damos, sempre, graças a Deus por todos vós […] recordando-nos […] da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança […] reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição” (I Ts 1.2-4).
Outras passagens nos dizem que os crentes foram “eleitos em santificação do Espírito para a obediência” (I Pe 1.2); foram “predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29). O apóstolo Paulo escreveu aos Efésios: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo [que] nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos irrepreensíveis perante ele […]” (Ef 1.3-4).
Naturalmente, é difícil saber com certeza o que as pessoas realmente são. Há cristianismo aparente; e cristãos verdadeiros, lamentavelmente, cometem pecados. Mas, se um indivíduo não mostra uma santidade inicial e crescente, é de se supor que ele ainda não está salvo. Será um eleito?
3. A santificação é uma indiscutível evidência da presença do Espírito Santo no crente, algo essencial à salvação. Há uma certa confusão a respeito da doutrina do Espírito Santo. Muitos entendem que o cristão é “batismo pelo Espírito” em um momento especial posterior à conversão e que a evidência desta “experiência” é o “falar em línguas”. Mas não é bem assim. O crente recebe o Espírito quando se converte a Cristo. E “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele’ (Rm 8.9). Também na conversão, o crente recebe um ou mais “dons espirituais”, conforme o Senhor lhe concede, soberanamente, “como lhe apraz” (I Co 12.11. Posteriormente, leia I Co 12 a 14). Mas não são os dons (capacitações para serviço ou ministérios) que melhor evidenciam a presença do Espírito na vida do crente, e muito menos sua santidade. O que evidencia a verdadeira santidade ou que o crente é “espiritual” ou está crescendo espiritualmente é o chamado “fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23). Pode-se dizer que a santificação é o desenvolvimento dessas virtudes.
4. A santificação não deve ser confundida com religiosidade formal, êxtase, excitação, histeria, línguas, barulho… Escrevendo a Timóteo, o apóstolo profetizou tempos difíceis, quando os homens serão egoístas, avarentos, etc. “[…] tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (II Tm 3.1-5). “Forma de piedade” é piedade ou santidade aparente, fingida, hipócrita, exibicionista, que não reflete vida santa. Como dito acima, a evidência da verdadeira piedade é o “fruto do Espírito”. Jesus censurou fortemente os líderes religiosos que davam um jeito de chamar a atenção quando davam esmolas “para serem glorificados pelos homens”, gostavam de orar em lugares públicos “para serem vistos dos homens”, desfiguravam o rosto “com o fim de parecer aos homens que jejuavam”. Jesus os chamou de hipócritas! (Mt 6). Veja importante citação maior no final desse texto.
5. A santificação é percebida pelos circunstantes. Uma coisa é o santo exibir orgulhosamente sua pretensa espiritualidade ou santidade, outra coisa é outros perceberem seu o “fruto do espírito” no seu dia a dia. Jesus disse que “cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto” (Lc 6.44). O santo será conhecido por sua santidade. Uma vez que esta inclui, necessariamente, a humildade, pode ser que ele não veja em si mesmo senão fraqueza e defeitos. (Ver Mt 25.37-39). Mas os outros verão a santidade do seu caráter e dos seus hábitos de vida. Jesus ordenou a santidade nos termos seguintes: “Vós sois a luz do mundo […] brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus,” (Mt 5.14-16).
6. A santificação é crescente e pode ter graus. O crente pode estar mais sanificado num período do que noutro, e pode ser mais ou menos santo do que outros crentes. Não pode ser mais perdoado e mais justificado, mas pode ser mais santificado, porque cada graça em seu novo caráter pode ser fortalecida e aprofundada. Este é o sentido das palavras de Pedro: “Crescei na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Pe 3.17-18).
O crescimento espiritual é uma jornada contínua de transformação, onde o cristão se torna cada vez mais semelhante a Jesus em caráter e conduta. É um processo que envolve a graça de Deus, a fé do indivíduo e a prática das disciplinas espirituais.
7. A plena santificação não será alcançada nesta vida. O ideal da santidade é a perfeição do próprio Deus. Jesus disse, no Sermão do Monte: “Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48). O apóstolo Pedro escreveu: “[…] segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos vós mesmos em todo vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.” (I Pe 1.15-16). O apóstolo Paulo escreveu aos Coríntios: “[…] purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (II Co 7.1).
Entretanto, em parte alguma as Escrituras nos dizem que a santidade absoluta e a perfeição podem ser alcançados nesta vida. Os mais eminentes santos de Deus, em todos os séculos, sempre foram os primeiros a reconhecer, humildemente, suas imperfeições. De fato, quanto mais intensa a luz espiritual, mais consciência temos de nossos pecados (Is 6.5; Rm 7.18-19). “Não existe verdadeira santidade sem humildade.” (Thomas Fuller). E este é o ponto: sendo o alvo assim tão elevado, inatingível nesta vida, não podemos jamais ficar satisfeitos, acomodados, e muito menos orgulhosos de nossas conquistas espirituais. Ver Fp 3.12-14 e I Jo 3.2.
8. A santificação depende do uso diligente dos meios providos por Deus. São os chamados meios de graça: Estudo diligente da Bíblia, oração perseverante, adoração, atenção às pregações, comunhão com os irmãos na família da fé, boas leituras cristãs etc. Paulo recomendou a Timóteo: “Exercita-te, pessoalmente, na piedade” (I Tm 4.7-8). E Pedro: “[…] desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento […]” (I Pe 2.1-2). John Wesley escreveu: ”Deus disponibilizou três meios para a santificação: o sangue de Jesus (Hb 13.12); o Espírito Santo (II Ts 2.13); e a própria Palavra de Deus (Jo 17.17; Ef 5.26). O Senhor nos forneceu todos os recursos necessários para uma vida santa e separada do mundanismo (Rm 12.1-2).”
Conclusão
Concluindo, transcrevo aqui um trecho precioso do já referido livro de John Ryle, SANTIDADE:
“A verdadeira santidade não consiste apenas em crer e em sentir, mas em realizar e suportar […]. Nosso linguajar, nosso temperamento, nossas paixões e inclinações naturais, nossa conduta como esposos e esposas, como pais e filhos, como patrões e empregados, com governantes e cidadãos, nossa maneira de vestir, o uso que fazemos do tempo, nossa conduta nos negócios, nosso comportamento na saúde e na enfermidade, na riqueza e na pobreza, tudo, tudo faz parte daquilo que os escritores impelidos pelo Espírito abordaram […]. Eles cavaram fundo […]; especificaram minuciosamente o que o homem santo deve fazer no seio de sua família, dentro do seu lar […]. A verdadeira santidade envolve muito mais que lágrimas, suspiros e demonstração física, ou pulso acelerado e um apego apaixonado a pregadores favoritos […]. Antes, é algo da imagem de Cristo, que pode ser vista e observada por outras pessoas em nossa vida particular, em nossos hábitos, em nosso caráter e em nossas ações (Rm 8.29).” (J. Ryle, SANTIDADE, ps. 10-11).
Para a glória de Deus, e para a sua própria alegria, busque a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor!
Pr. Éber Lenz César
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