Introdução
É do famoso artista Rembrand (1668) um quadro retratando o retorno do Filho Pródigo, da parábola de Jesus, retornando à casa do pai. Como sabemos, a cena ilustra o pecador que, arrependido, volta para Deus. Ele o faz com a fé ou certeza de que o Pai o acolherá em amor, e o perdoará.
Arrependimento e fé são ingredientes imprescindíveis e inseparáveis tanto na conversão do pecador como em qualquer avivamento espiritual, individual ou coletivo.
No avivamento do Pentecostes, quando o Senhor Jesus cumpriu sua promessa de enviar o Espírito Santo aos seus seguidores, Pedro pregou uma poderosa mensagem. A multidão que o ouvia, foi tocada ou quebrantada espiritualmente pelo Espírito e perguntou, aflita: “Irmãos, o que devemos fazer?” Pedro respondeu: “Vocês devem se arrepender, para o perdão de seus pecados!” Resultado? Cerca de três mil pessoas se converteram a Cristo e foram batizadas!
Numa das igrejas que pastoreei, após uma série de pregações sobre avivamento, realizamos um culto especial de avivamento. Momentos antes de encerrarmos o culto, um irmão, diácono, se levantou e caminhou até o púlpito. Ele andava me criticando pelas costas, causando mal estar na igreja. Temi que dissesse em público algo inapropriado, rancoroso. Mas ele me abraçou, chorando, e publicamente pediu perdão, a mim e à igreja. Depois dele, outros muitos vieram à frente, abraçando-se uns aos outros, arrependidos, confessando e pedindo perdão. O culto se estendeu até depois da meia noite. Uma noite memorável!
A Bíblia tem muito a nos dizer sobre arrependimento e fé..
2. Tanto no Velho como no Novo testamento, Deus ordena aos homens que se arrependam e se voltem para Deus.
“Tragam suas confissões e voltem para o Senhor. Digam-lhe: Perdoa nossos pecados e recebe-nos com bondade […].” A versão RA, traduz: “Volta, ó Israel para o Senhor […]. Tende convosco palavras de arrependimento e convertei-vos ao Senhor […]” (Os 14.2, RA).
João Batista, preparando o caminho para Jesus, o Messias, pregou um batismo de arrependimento, dizendo: “Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo”(Mt 3.2).
Jesus iniciou seu ministério público, dizendo: “O reino de Deus está próximo! Arrependam-se e creiam nas boas novas!” (Mc 1.15).
No mesmo dia em que ressuscitou, Jesus apareceu a dois dos seus discípulos no caminho de Emaús. Explicou-lhes as Escrituras, e disse-lhes: “Está escrito que o Cristo haveria de sofrer, morrer e ressuscitar no terceiro dia, e que a mensagem de arrependimento para perdão dos pecados seria proclamada com a autoridade de seu nome a todas as nações” (Lc 24.46-47).
E foi isso mesmo que os apóstolos fizeram nos anos seguintes. Ainda no clima do Pentecostes, Pedro curou um paralítico que mendigava à porta do Templo. Uma pequena multidão se reuniu ali, admirada. Pedro lhes falou da morte e da ressurreição de Cristo. Concluiu dizendo: “Agora, arrependam-se e voltem-se para Deus, para que seus pecados sejam apagados [perdoados]. Então, da presença do Senhor virão tempos de renovação” (At 3.19-20 NVT).
O apóstolo Paulo, já no final de seu ministério, disse aos presbíteros de Éfeso: “[…] fiz o trabalho do Senhor humildemente […]. Anunciei uma única mensagem tanto para judeus como para gregos: é necessário que se arrependam, se voltem para Deus e tenham fé em nosso Senhor Jesus Cristo […]” (At 20.18-21).
O que vem primeiro? Arrependimento ou a fé? Varia, mas parece melhor tratar primeiro do arrependimento porque, pela lógica, o lugar em que se estava (pecado) precede o lugar para onde se vai (Cristo).
3. O verdadeiro arrependimento.
O arrependimento bíblico não pode ser fingido ou interesseiro. Nas passagens lidas, a ordem “arrependei-vos” vem acompanhada destas outras: “voltem-se para Deus” ou “convertam-se”. É muito mais do que simplesmente admitir erros e pecados. É preciso parar de cometer esses erros e pecados. A seguir, vou mencionar algumas características do verdadeiro arrependimento.
No Novo Testamento, o termo grego para arrependimento é “METANOIA”, que significa mudança de mente, pensar de modo diferente sobre determinado procedimento.
“Que os perversos mudem de conduta e deixem de lado até mesmo a ideia de fazer o mal. Que se voltem para o Senhor, para que ele tenha misericórdia deles […]. Ele os perdoará generosamente” (Is 55.7).
Antes de se converterem a Cristo, mediante arrependimento e fé, as pessoas acham normal ou até mesmo conveniente tal ou qual procedimento pecaminoso; orgulham-se de certas atitudes egoístas e soberbas; defendem e se conduzem por ideologias abomináveis aos olhos de Deus. Pensam e agem assim até que o Espirito as convença “do pecado, da justiça e do juízo”, como Jesus disse que ele faria (Jo 16.8-11). O arrependimento sincero muda seu pensar e agir. E não só isto…
Se o arrependimento é sincero, verdadeiro, o pecador sentirá uma profunda tristeza por ter cometido tal ou qual pecado. As pessoas geralmente lamentam e choram quando ofendidas; quando ficam doentes, quando sofrem uma perda… Mas dificilmente choram por seus pecados ou mesmo pelos pecados da igreja ou da sociedade.
Deus falou pelo profeta Joel: “O Senhor diz: Voltem para mim de todo o coração, venham a mim com jejum, choro e lamento. Não rasguem as roupas em sinal de tristeza; rasguem o coração! Voltem para o Senhor seu Deus, pois ele é misericordioso e compassivo, lento para se irar e cheio de amor […]” (Jl 2.12-13).
Foi neste sentido que Jesus disse esta bem-aventurança: “Felizes são vocês que agora choram, pois no devido tempo rirão […]. choram, porque serão consolados […]. Que aflição espera vocês que agora riem [a despeito de seus pecados], pois em breve seu riso se transformará em lamento e tristeza” [por razão das consequências de seu pecado]”. (Lc 6.21,25, NVT).
Estando Israel no exílio, na Babilônia, Deus lhes falou através do profeta Ezequiel: “Transmita ao povo de Israel esta mensagem do Senhor: Eu os trarei de volta, ó povo de Israel[…]. Eu os purificarei de sua impureza […]. Eu lhes darei um novo coração e colocarei em vocês um novo espírito […]. Então se lembrarão dos pecados que cometeram no passado e terão aversão de si mesmos por todas as coisas detestáveis que fizeram […]. Ó meu povo de Israel, vocês deveriam se envergonhar profundamente de tudo que fizeram!” (Jl 36.22-32)
Nestes tempos pós-modernos ou de “modernidade líquida”, como preferiu dizer o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, tempos de ideologias estranhas e novas opções sexuais, de bebês reborn e muitas outras loucuras, o pecado deixou de ser pecado…
Num vôo da TAM, folheando a revista de bordo, eu me deparei com um artigo da jornalista Cláudia Matarazzo, intitulado “Pecar pode ser a solução”. Fotografei uns trechos:
“Sua vida está difícil? Nunca pareceu tão chata? A pressão está insuportável e você não vê a hora de fugir para um respiro? […]. Não se descabele […] Pecar pode ser a solução […].”
A articulista ressalta que não está falando de “grandes pecados, aqueles que fariam você arder no fogo do inferno”, mas de “pecados pequeninos e (quase) inofensivos […]”. Ela sugere e comenta, entre outros, os seguintes: “tomar Coca-Cola no café da manhã; voltar para a cama depois de comer; andar sem roupa pela casa […]; encarar alguém atraente no trânsito, flertar até onde tiver vontade e, se valer a pena, pedir o telefone; entrar num sex shop e comprar o que quiser, sem auto censura […].”
Por fim, sugere a articulista, “Faça reserva para passar a noite em seu hotel preferido. E leve tudo o que comprou na sex shop. E ligue para o telefone da pessoa atraente do trânsito. Decida se o próximo passo entrará na categoria dos pecados que contam pontos para o inferno e, se valer a pena, vá em frente […]”
Há uma premente necessidade de retomarmos a pregação profética, a pregação bíblica, a pregação de João Batista, de Jesus, dos apóstolos e de muitos outros pregadores fiéis e corajosos através dos séculos: “Arrependam-se e creiam!”
Em sua segunda carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo faz referência a um “carta severa” que tinha escrito àquela igreja por razão de um grave pecado cometido por um membro da igreja. Essa carta não foi preservada na Bíblia. Seria uma II Coríntios, e esta que temos como sendo II Coríntios, seria a terceira.
Veja o que o apóstolo lhes escreveu:
“Não me arrependo de ter enviado aquela carta severa, embora a princípio tenha lamentado a dor que ela lhes causou […]. Agora, porém, alegro-me por tê-la enviado, não pela tristeza que causou, mas porque a dor os levou ao arrependimento. Foi o tipo de tristeza que Deus espera de seu povo […]. Porque a tristeza que é da vontade de Deus conduz ao arrependimento e resulta em salvação. Não é uma tristeza que causa remorso, mas a tristeza do mundo resulta em morte […]” (II Co 7.8-10).
Você notou? Paulo fala de dois tipos de reação ao pecado, dois tipos de tristeza pelo pecado e o que cada uma produz: A “tristeza segundo Deus”, que resulta em salvação (Exemplo: Pedro, quando negou sua relação com Jesus, Mt 26.60-75), e “tristeza do mundo” que leva à morte (Exemplo, Judas que, depois de trair a Jesus, teve remorsos, foi e suicidou-se. Mt 27.3-5).
4. Motivação do verdadeiro arrependimento.
A motivação também indica se o arrependimento é verdadeiro, fingido ou mesmo egoísta. Alguns se arrependem de certo procedimento errado ou pecaminoso simplesmente porque estão sofrendo as consequências ou porque foram apanhados… Esse é um arrependimento egoísta, do mundo.
A motivação do verdadeiro arrependimento, tem a ver com Deus. Todo pecado é em última análise, um descumprimento da vontade de Deus, e uma ofensa a Deus.
Quando inclinados a agir na carne, dar expressão à raiva, agir impensadamente ou quando tentados a fazer algo que sabemos ser pecado, ajuda muito lembrar que todo pecado é uma ofensa a Deus, nosso Pai!
5. Sobre fé.
No que diz respeito à resposta do pecador à mensagem do evangelho e à pregação da Palavra como um todo, a fé é tão essencial como o arrependimento.
No Velho Testamento, os termos usados para expressar o conceito de fé têm o sentido de descansar ou apoiar-se em alguém, confiar, geralmente em Deus e em suas promessas.
No Novo Testamento, a palavra é pisteou, que tem dois significados:
Esses textos dizem “crer no nome”, porque, para os hebreus, o nome representava a pessoa; crer no nome de Jesus significa confiar em Jesus. “A este [Jesus] ressuscitou Deus no terceiro dia […]. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” (At 10.40,43. Ver Gl 2.115-16).
Então, a fé que salva é aquela que acredita na Palavra de Deus, especialmente a mensagem evangélica, e confia em Jesus Cristo para perdão, salvação e direção.
6. Obra o Espírito Santo.
Arrependimento e fé, dissemos, são a resposta do pecador à oferta de perdão e salvação que nos é feita em Cristo. Entretanto, precisamos lembrar que tanto o arrependimento como a fé são dádivas graciosas e soberanas de Deus.
Conclusão.
Preparando este estudo, orei e pedi a Deus que o aplicasse ao meu próprio coração. Recordei momentos difíceis pelos quais já passei, pecados que cometi. Dei graças a Deus pela consciência que pesou, pela tristeza que senti e, então, pela dádiva do arrependimento segundo Deus, a fé que se renovou, o perdão que recebi, a correção, a mudança, o crescimento espiritual.
Peço a Deus que este estudo seja aplicado pelo Espírito Santo ao seu coração também e produza mudanças, conforme a necessidade.
Você pode dizer com segurança que é convertido, que já se arrependeu de seus pecados e creu em Jesus Cristo como seu Salvador e Senhor? Quando peca (sim, todos ainda pecamos, lamentavelmente) arrepende-se prontamente, com profundo pesar por ter ofendido Aquele que tanto o ama e abençoa? Confia que Ele o perdoa graciosamente e o ajuda em suas fraquezas? Ou você se justifica, culpa a esposa ou o marido, a igreja, as circunstâncias?
“Arrependei-vos e crede!”
Éber Lenz César
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